segunda-feira, 23 de julho de 2018

Özil fez demais pela seleção alemã para sair pela porta dos fundos


Taxado como o principal responsável pelo mau futebol apresentado pela seleção alemã na Copa do Mundo da Rússia, o meia Mesut Özil anunciou nesse domingo a sua aposentadoria internacional. Mas a justificativa do atleta não foi apenas uma resposta para as pesadas críticas dos alemães quanto ao seu desempenho em solo russo, e sim ao fato dele possuir descendência turca. Na sua visão, ao longo de sua carreira, ter convivido com o racismo exigiu carregar um fardo pesado.
Campeão mundial e destaque na geração vitoriosa alemã, Özil foi símbolo de uma Alemanha multirracial (Getty Images)
O adeus em meio a uma tonelada de críticas não condiz com o que o jogador desenvolveu pelo selecionado do seu país, principalmente nos Mundiais de 2010 e 2014. Aliás, a terceira colocação na Copa da África foi fundamental para que Özil apresentasse o seu brilhante futebol para o mundo e, junto com Khedira, se destacasse mais do que os outros. O bom rendimento levou a dupla ao Real Madrid.

Camisa 10 na fracassada Alemanha de 2018,
Özil deixa a seleção com 92 jogos e 23 gols (Getty Images)
Na Copa do Brasil, já um jogador bem formado no Arsenal, foi um dos protagonistas na conquista do tetra alemão. Além de tudo, na Rússia, com mais uma estrela na camisa, o meia assumiu o número 10 do time campeão do mundo.

Com quase 100 jogos pelo time principal da Alemanha, Özil marcou época. Porém, o sempre foi discreto, como poucos, e a sua discrição talvez seja até demais e incomode muita gente.

Na Copa do Mundo de 2018, Özil de fato não foi bem. No entanto, não tão pior que os seus companheiros de equipe, que, envoltos numa preparação resumida em muita soberba e pouco trabalho, resultou num fracasso histórico.

Além do futebol, o dilema racial

Mesut Özil sofre por ter descendência turca
desde os tempos de Schalke 04 (Reuters)
Se o futebol foi abaixo do esperado, Mesut Özil sofre mais do que os demais comandados de Joachim Löw. Questionado até por não cantar o hino nacional, a sua descendência turca incomoda desde os tempos de Schalke 04, clube que o revelou para o futebol.

Pelo time azul real, Özil chegou a sofrer ameaças. E mesmo natural de Gelsenkirchen, houve resistência quando foi convocado, ainda jovem.

Anos depois, craque formado, o título mundial acalmou os ânimos de uma Alemanha ácida para com o seu camisa 10. Fato que voltou a rondar semanas antes da Copa da Rússia. Unido a Gundogan, também integrante da seleção na péssima campanha pelo Grupo F, posaram juntos com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. A imagem, obviamente, não pegou bem e o fracasso mundial fez os alemães relembrarem da cena. Özil não suportou os ecos do facismo.

Mais afastado do seu povo, um retorno futuro para o futebol alemão parece cada vez mais distante.
Com o também alemão Gundogan e do turco Tosun, Özil posa com o presidente Erdogan, da Turquia (Reuters)
No atual cenário mundial, quando a França chega ao topo do mundo e conquista um título com um elenco completamente miscigenado, a Alemanha dá mostras daquilo que de pior comprometeu a nação por muitos anos. O futebol é reflexo da sociedade e o desempenho na Copa do Rússia, por maior simbolismo que existe, comprovou todo o retrocesso.

Özil não merecia deixar a seleção dessa maneira, mas a decisão pela aposentadoria é correta.