quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Kaká não era superestimado, mas vestiu a 10 de um Brasil sem brilho

Aos 35 anos, Kaká anunciou oficialmente a sua aposentadoria do futebol. Profissionalmente, foram 15 anos de carreira. O meia conseguiu mostrar talento, conquistar títulos, se tornar ídolo e chegar ao topo do planeta individualmente e coletivamente. No entanto, da metade para a reta final, uma queda brusca misturado a um toque de comodismo resultaram em um adeus melancólico.
Revés para a Holanda em Porto Elizabeth foi o último grande ato de Kaká pela Seleção Brasileira (Paulo Whitaker)
Kaká não foi um jogador superestimado, longe disso, mas a verdade é que foi o camisa 10, o líder técnico, de uma Seleção Brasileira sem brilho e carente de craques.

O ano era 2010, o Brasil foi para a Copa do Mundo da África do Sul com Dunga no comando técnico após ter conquistado a Copa América, a Copa das Confederações e a liderança nas Eliminatórias da Conmebol. Porém, o que mais chamava a atenção daquele time era a falta de grandes referências, lideranças técnicas, algo bem diferente do que foi visto na Copa da Alemanha, em 2006.

Em 2007, pelo Milan, Kaká se tornou o melhor jogador
do mundo (Reprodução/Uefa)
E daquele quadrado mágico, formado por Ronaldo, Adriano, Ronaldinho e Kaká, que fracassou em Frankfurt contra a França, apenas a lenda do Milan permaneceu para o Mundial sul-africano. É bem verdade que do quarteto, Ronaldinho e Adriano o deixaram na mão, por irresponsabilidade, depressão – no caso do Imperador – e falta de vontade de jogar no alto nível. Já Ronaldo, apesar de ainda estar em atividade, já não tinha mais condições de atuar pela Seleção.

Kaká não foi capaz de evitar que o Brasil perdesse para a Holanda, de virada por 2 a 1, e desse adeus a Copa do Mundo. Apesar de ter conseguido acertar um belo chute na primeira etapa, na qual Stekelenburg saltou para defender, o meia não tinha mais o recurso nem a companhia adequada para tirar um coelho da cartola.

Pelo Real Madrid, um misto de pubalgia e
 acomodação (Getty Images)
E, sem brilho, representou um time sem brilho, fraco, graças ao seu treinador, que optou, com razão, por não levar Ronaldinho, mas pecou em não convocar Marcelo e talvez Neymar, aquele que ainda era garoto, mas viria a ser melhor e mais importante que Kaká para o futebol brasileiro.

Eliminação à parte, aquele ano de 2010 foi o período de transição do alto para o baixo na carreira de Kaká. De uma joia brilhante no São Paulo, aquela que foi pentacampeão do mundo com a Seleção Brasileira de Felipão, para a afirmação de uma lenda no Milan, campeão italiano, europeu e mundial.

Cinco anos depois, Kaká retornou ao Milan, mas já
 era um jogador comum (Divulgação/Milan)
Porém, foi no Real Madrid que Kaká descobriu a pubalgia, um distúrbio no púbis que causa fortes dores e impossibilita o melhor rendimento de um atleta. Também foi na capital espanhola que o jogador brasileiro viveu uma situação incomum: o mau futebol nos tempos de Manuel Pellegrini - que terminou com um desabafo em forma de palavrão ao ser eliminado da Liga dos Campeões da Europa – e o ostracismo no banco da equipe de José Mourinho.

As dores e, de certa forma, a acomodação complicaram a passagem de Kaká pelo Real Madrid. E após cinco anos, ele decidiu iniciar o seu rito de aposentadoria. Retornou ao Milan para uma apenas uma temporada e pasmem, apesar de não ser mais o bom e velho Rubro-Negro, não era tão horroroso quanto o atual. Defendeu também o São Paulo, em 2015: foram seis meses de um jogo correto, mas longe de ser brilhante.

Kaká recusou o Manchester City, mas jogou pelo
 Orlando City (Divulgação/Orlando City)
O último ato aconteceu nos Estados Unidos, pelo Orlando City. A franquia comandada por um brasileiro não viu as arrancadas históricas de Kaká, mas viu um camisa 10 adequado, muito acima da média comparado aos companheiros de equipe, mas longe de ser fora do comum na Major League Soccer. O adeus foi um lamento, de um homem que não conseguiu chegar à fase final.


 O adeus de Kaká é também um lamento para ele, que poderia ter sido mais do que prometeu ou até chegou a ser. A bola de ouro e o prêmio da Fifa de melhor do mundo em 2007 foi o auge, um merecido reconhecimento. No entanto, os marcos do craque sem brilho mereciam uma metade final de carreira tão boa quanto a primeira. Que, por sinal, é simbolizada pela mão na cabeça de frustração após o apito final em Porto Elizabeth, em 2010.

A solidão e a impotência: deu até pena de Kaká como o camisa 10 de Dunga (Eduardo Nicolau/AE)