terça-feira, 26 de setembro de 2017

Enquanto taparmos o sol com a peneira, a corrupção vai sempre reinar

Um mistério envolvendo as convocações para a Seleção Brasileira de futebol foi confirmado nessa segunda-feira. Convidado da semana do programa Bem, Amigos, do canal por assinatura SporTV, o ex-jogador e atual senador do Rio de Janeiro pelo Partido Socialista Brasileiro, Romário Faria, afirmou que agentes influentes no mundo do futebol realizam acordos para que os seus atletas figurem as listas para jogar na equipe canarinha. O político ainda informou que sua apuração durou quase um ano e meio e também descobriu contas ilícitas dos principais dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol.
Participação do hoje senador Romário foi polêmica e poderia ter sido melhor explorada (Reprodução / SporTV)

Apesar da lenda rotineiramente circular a mídia esportiva, o apresentador do programa, o também lendário Galvão Bueno, se mostrou interessado nas palavras do Baixinho herói do tetracampeonato mundial.

"eu investiguei por quase um ano e meio. E sim, existe esquema na convocação da Seleção. Alguns jogadores são convocados por exigências de agentes influentes." Contou Romário.

Na sequência da conversa, Galvão tenta jogar a responsabilidade para a Era Dunga e Gilmar e eximir Tite de qualquer envolvimento com a gravíssima acusação. No entanto, Romário afirma que sua investigação seguiu durante os primeiros meses do atual comandante da Amarelinha.

"Mas isso acontecia antigamente, não é? Hoje não existe mais." Questiona Galvão Bueno.

"Eu só posso falar do período em que eu investiguei. Que foi do primeiro semestre de 2015 (quando Dunga era o treinador) até novembro de 2016 (Tite foi anunciado pela CBF em junho, e assumiu o time em setembro)." Responde Romário.

Dunga como técnico da Seleção Brasileira: um fracasso total
(Cisco Nobre / Tribuna do Cisco)
Ao ouvir as palavras frias e contundentes de Romário, Galvão simplesmente muda de assunto. Relata a crise que o país vivencia e os acontecimentos que marcaram os últimos anos dos governantes brasileiros. E mesmo com a oportunidade de ir a fundo e destrinchar aquilo que pode desencadear uma investigação mais concreta, o jornalista, opta por deixar passar. A Seleção Brasileira, de Tite, está numa situação muito confortável para se preocupar com alguns nomes que o comandante gaúcho convoca.

Obviamente, que sob o comando técnico de Dunga, tudo era mais fácil de se criticar. No campo, os resultados não vinham. Fora dele, o treinador apresentava um mundo irreal, em que a equipe estava evoluindo. Contudo, o que realmente estava crescendo era o poder do lucro de alguns nomes questionáveis na lista de convocados.

Concordando ou não com o talento de alguns nomes, durante a passagem de Dunga como treinador e Gilmar Rinaldi como coordenador de seleções, cinco selecionáveis acertaram transferências milionárias. Confira a lista.

As cinco principais transações dos selecionáveis durante a Era Gilmar/Dunga:

1) Douglas Costa - Shakhtar para o Bayern de Munique - 30 milhões de euros
2) Roberto Firmino - Hoffenheim para o Liverpool - 25 milhões de euros
3) Gil - Corinthians para o Shandong Luneng - 10 milhões de euros
4) Renato Augusto - Corinthians para o Beijing Guoan - 8 milhões de euros
5) Alisson - Internacional para a Roma - 5 milhões de euros
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TOTAL: 78 milhões de euros

Os nomes acima não estão ligados a investigação de Romário. É apenas um levantamento da valorização de alguns bons jogadores convocados por Dunga e Gilmar que se valorizaram graças as convocações.
Hoje na Juventus, Douglas Costa foi a transação mais cara do Brasil durante a Era Dunga (Cisco Nobre / Tribuna do Cisco)


E ao deixar a CBF, Gilmar Rinaldi afirmou "acho que cumpri meu trabalho da melhor forma possível. Os resultados não vieram, entendo a posição do presidente." Na verdade, a sua passagem foi catastrófica. Com direito a eliminação da Copa América na fase de grupos para o limitado Peru.

Mano Menezes, Dunga e Tite não são necessariamente os principais culpados dessa investigação do senador do PSB. Eles são apenas uma engrenagem de um esquema tão grande quanto as nossas cinco estrelas, mas tão suja que não merece tamanha comparação. Os representantes da CBF e os influentes empresários é que são responsáveis por esse câncer no futebol mundial.

E Romário também não define em qual lado está. Afinal de contas, no início de sua carreira política, o Baixinho era aliado de Sérgio Cabral (ex-governador do Rio de Janeiro e hoje condenado na Operação Lava-Jato) e Ricardo Teixeira (ex-presidente da CBF). O ídolo do futebol brasileiro era a face da candidatura brasileira a sede da Copa de 2014.
Um desempenho fenomenal, Tite é vítima e culpado na polêmica confirmada por Romário (Cisco Nobre / Tribuna do Cisco)


Contudo, a passagem de Romário como embaixador da Copa do Mundo foi curta e o bastão foi passado para Ronaldo Fenômeno. Com a sua saída, o antiga camisa 11 declarou guerra à CBF e prometeu quebrar o sigilo da entidade que comanda o futebol do Brasil. Ingenuidade ou traição? Por ora, não saberemos.

O fato é que, se repetirmos a atitude de Galvão Bueno, mudarmos de assunto e esquecer o real problema enquanto as coisas estiverem bem, uma hora a conta vai chegar. Enquanto taparmos o sol com a peneira, a corrupção vai sempre reinar.