domingo, 28 de maio de 2017

Deus disse adeus,

A história intensa de Roma resumida em 25 anos de carreira profissional de Totti (Gazetta Giallorossa)

Conheci a Roma por volta de 2003 ou 2004, eu tinha oito ou nove anos, não lembro ao certo, não era muito apegado ao futebol europeu, a não ser pelo brilhantismo do auge de Ronaldinho no Barcelona. Tanto é que o meu primeiro contato com os Giallorossi foi através de uma dessas versões editadas de Winning Eleven 2002, ainda no Playstation One. Naquele jogo, dentre tantos clubes memoráveis, dos Galácticos do Real Madrid ao Milan campeão europeu no meio de diversos brasileiros, eu escolhi um time mediano, um clube tão cheio de brasileiros quanto o Rubro-Negro italiano.

Mas pera aí, a Roma não era qualquer uma, a camisa grená da cidade eterna é responsável por ser o clube estrangeiro que mais cedeu brasileiros para a Copa do Mundo. O clube da capital possui feitos incríveis, como o de rivalizar com equipes lendárias como a Internazionale da década passada e a Juventus da atualidade. Contudo, nenhum grande feito romanista é maior do que o de revelar Francesco Totti. O Capitano disse adeus ao clube neste domingo e deixou os seus fiéis sem fé, desacreditados pelo fim amargo.

Totti: a entidade Romanista e o sucesso pela Azzurra
(Montagem: Tribuna do Cisco)
O maior jogador da história da Roma é também, e SEM DÚVIDAS, o maior jogador da história do futebol italiano. Totti é gigante, tão grande quanto ao clube no qual decidiu desenvolver toda a sua carreira. O jovem que chegou a Roma em 1989 subiu para os profissionais em 1992. Desde então, o patamar giallorossi mudou, subiu, subiu, subiu.

Aos poucos, Totti foi ganhando espaço, era daqueles jogadores que o mundo reconhece e define como diferenciado. O talento e a liderança o transformaram em “Il Capitano”, o cara que levaria a Bola de Ouro se jogasse por uma agremiação mais midiática, mas campeã. E não faltaram oportunidades para que Francesco Totti deixasse o clube. Veio o Real Madrid, nos anos 2000, naquele tempo de Ronaldo, Raul, Beckham, Figo, entre outros tantos. Veio o Milan, ainda na juventude, mas o garoto queria mesmo era levar a Roma ao topo do Calcio.

Ele conseguiu! A Roma dos poucos títulos do campeonato nacional, chegou ao topo pela terceira vez na temporada 2000/2001. Comandados por Fabio Capello, o time que tinha um ataque para lá de respeitado, formado por Montella, o próprio Totti e somente Gabriel Bastituta, calou Juventus, Inter, Lazio e Milan e faturou a Serie A. Aquela equipe era especial, tinha Cafu, Emerson e Zago de brasileiros só no time titular. Aldair já estava em uma idade avançada.

O Calcio de 2001 foi uma história bonita, talvez a mais bonita dessa história de amor. Porém, duas conquistas consecutivas de Copa Itália deixaram a Roma no topo de maior vencedor daquela competição. Foi superada pela Juventus que vem de três conquistas seguidas da copa.

Os títulos são uma página bacana, mas vitórias pessoais e individuais marcaram demais a carreira de Totti. O jogador que é responsável por ser o atleta mais velho a marcar um gol na era moderna da Liga dos Campeões da Europa. Por sinal, um belo gol contra o Manchester City, em 2014 em solo inglês. 
1. Maradona / 2. Buffon / 3. Federer / 4. Messi
(Montagem: Tribuna do Cisco)
Em 24 anos de atividade, Totti não foi apenas o jogador de um clube só. O menino que se tornou homem de Roma esbanjou talento pela seleção nacional. Foram 58 partidas intensas pela Azzurra, de 1998 até 2006, com a conquista do tetracampeonato mundial. Aquela vitória na Copa do Mundo da Alemanha foi especial, Totti marcou um gol importante naquela ocasião. O tento contra a Austrália foi polêmico, mas tirou a pressão da Itália naquele que foi um dos jogos mais complicados dos italianos na competição.

Permanecer na cidade de Roma não retirou o holofote, pelo contrário, a admiração por parte de outros atletas, de até outras modalidades, foi só ampliada. Totti é daqueles jogadores que não são esquecidos, daqueles que jamais deveriam se aposentar. O cara é midiático a ponto de tirar uma selfie após ser decisivo no maior dérbi contra a Lazio.

É triste, mas parece que o momento chegou. Totti virou um problema para os técnicos que dirigem a Roma. Rudi Garcia recebia críticas, mas até colocava o Capitano para jogar nos seus tempos de clube, de 2013 até 2016. Já Luciano Spalletti, o homem que foi o treinador romanista no bicampeonato da Copa Itália, se transformou em vilão na segunda passagem. Nesta reta final de carreira, Totti se viu traído por Spalletti, que colocou o camisa 10 para jogar faltando 3 ou 4 minutos para o apito final. A atitude doía no capitão, na cidade de Roma, no torcedor e no admirador, aquele acompanha e respeita a história de amor mais bonita do futebol.

Francesco Totti abriu mão da grife, da glória por clubes maiores, da vaidade que é a Bola de Ouro. Mas arrematou conquistas individuais, é o jogador com mais jogos pela Roma, são impressionantes 785 partidas, contando com a deste domingo contra o Genoa,. É também o maior artilheiro romanista, com 307 gols marcados.

'Recusa de Totti para o Real foi maior demonstração de amor por um clube' disse Rodrigo Taddei, um brasileiro bem italiano e muito romanista que passou boa parte da carreira ao lado de Francesco Totti pela Roma.

Após grande temporada em 2014, Totti, aos 38 anos, ouviu torcedores italianos clamarem pela sua convocação para a Copa do Mundo no Brasil(Divulgação / Roma)


A história de amor mais bonita do futebol está dizendo adeus, não da maneira que gostaria, mas com o dever de missão cumprida que a Roma jamais esperou de um atleta. Quer dizer, não só a Roma, qualquer clube de futebol. Totti ficou em Roma, disse sim a um projeto que visou a paixão, não a glória. Permaneceu por amor as causas que talvez fossem perdidas, mas não para um jogador como ele.