quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Raio-X Olímpico – Brasil por esportes individuais

A melhor colocação brasileira na história dos Jogos Olímpicos reuniu feitos inéditos, ouros de esportes que ninguém da grande mídia esperava, lembranças que ficarão guardadas no íntimo de cada coração sulamericano. Para o Brasil, os desafios do sonho olímpico começou desde a candidatura da Cidade Maravilhosa, onde que o país poderia realizar uma Olimpíada? Como manter o padrão do COI numa sociedade repleta de desigualdades e descaso por parte de Estado e das empreiteiras? Depois, assumir que não é de longe uma potência esportiva, o Brasil vai bem nos esportes coletivos, possui uma soberania imensa no futebol masculino, porém só no auge da crise conseguiu por fim ao jejum. Protagonizando diversos tipos de crise, a nação verde e amarela viveu dias de glórias, de vitórias e de fracassos.
As lágrimas percorrem o corpo e engolem a continência constrangedora de muitos atletas que não possuem nenhuma identificação com as Forças Armadas. (AFP)

Surpreendente desde o início, a primeira medalha brasileira no Rio veio por meio do tiro, Felipe Wu não era um dos favoritos, foi esquisito até para o próprio medalhista de prata quase conquistar o ouro e subir ao pódio. Se no tiro o Brasil foi surpresa, no judô esperava-se um pouco mais, apesar disso, o ouro de Rafaela Silva (injustiçada em Londres 2012) e os bronzes de Rafael Silva (Baby) e Mayra Aguiar renderam ao país um rendimento razoável. A expectativa era grande sobre a campeã olímpica em Londres Sarah Menezes, a brasileira não conseguiu repetir o desempenho, sofreu como nunca e amargou eliminação precoce.

Passando o bastão para debaixo d’água, a natação foi a maior decepção olímpica para o Brasil, nenhuma medalha sequer, a frustração foi tão grande que rendeu uma das melhores sonoras que alguém poderia ter dado. Questionado, pelo Sportv, sobre o desempenho na finalíssima, Bruno Fratus foi grosseiro mas bastante cômico, “tô felizão, fiquei em sexto!” A resposta resumiu o quanto deprimente foi a participação brasileira na natação. Das raias aquáticas para as pistas, o atletismo foi tão pobre quanto as piscinas, o Brasil não conseguiu medalha nas provas de corrida, por pouco não ficou zerado no salto, não fosse Thiago Braz. O salto com vara sempre foi esperança do brasileiro, mas a cada Olimpíada que passava Fabiana Murer dava mostras de que não possuía um psicológico tão bem formado, foram 9 saltos em 3 Jogos, 0% de acerto. Em contrapartida, Thiago Braz surpreendeu o mundo, desafiou um francês desrespeitoso e arrogante, bateu o chato campeão olímpico e fez história. Um ouro inédito, conquista dentro de casa que rendeu um dos mais belíssimos pódios de toda a Olimpíada, o choro do francês pela derrota e pela vaia, a felicidade inquestionável de Thiago, no topo, com mérito.

Caminhando novamente nas águas, o Brasil não nada bem nas piscinas, já na lagoa o desempenho foi fabuloso. Poliana Okimoto foi bronze devido a indisciplina de rival, mas a sua história e o seu preparo a credenciaram ao pódio na maratona aquática, nada mais justo. Não tão individual, mas no berço de um sobrenome campeão, Martine Grael se uniu a Kahena Kunzi para vencer a prova da vela, um ouro que normalmente vem e que não surpreende, até mesmo por tal sobrenome. Finalizando as Olimpíadas dos rios, Isaquias Queiroz, guarde bem este nome, o garoto de 22 anos que deixou a Bahia para celebrar três medalhas, duas de prata e uma de bronze. O ouro ficou para a próxima, mas participar de uma prata na canoa dupla junto a Erlon Souza foi tão gratificante quanto um título.

Os fracassos ficaram no passado, a ginástica artística brasileira protagonizou cenas marcantes, contemplando o brasileiro. Diego Hypolito foi prata após cair e sofrer traumas que duraram tempos demais. Arthur Zanetti era o nome mais aguardado, porém um grego deu seu presente para o brasileiro fera nas argolas, a prata acabou de bom tamanho. Arthur Mariano, o simpaticíssimo Nory, foi a grande surpresa na modalidade, um bronze no solo que encheu de orgulho o país, almejando um salto ainda maior para Tóquio. As meninas não conquistaram medalha, mas a juventude de Flávia Saraiva é esperança para o verde e amarelo de nossa bandeira.
Medalhas conquistadas por favoritos e pelos menos favorecidos pela grande mídia. (Tribuna do Cisco)
O teu filho que não foge à luta também foi destaque na Rio 2016, Robson Conceição é retrato de um Brasil desigual, que encontra soluções através do esporte. Foi no boxe que o baiano ficou reconhecido, venceu com autoridade os seus oponentes, jogou em casa e faturou o ouro inédito. Foi emocionante, as lágrimas ainda percorrem o corpo e engolem a continência constrangedora de muitos atletas que não possuem nenhuma identificação com as Forças Armadas. O chute de Maicon Siqueira pelo bronze no taekwondo encerrou o Brasil por esportes individuais, foi bacana, a sexta de bronze e última medalha conquistada pelo Brasil nos Jogos em se tratando de individual, 19 ao todo. Os fracassos na natação e no atletismo não devem ser apagados, mas os sucessos em modalidades marginalizadas são enaltecidos com a certeza de um reconhecimento mais próximo. 

Valeu Brasil individual!