terça-feira, 3 de maio de 2016

O Despertar de Leicester: A epopeia do impossível

Recordo-me de 31 de agosto de 2014, era a terceira rodada da Premier League 2014/2015, o Arsenal, um dos favoritos a conquista da liga foi até a cidade de Leicester encarar um clube que acabara de retornar a primeira divisão, foi a sua estreia no modelo mais moderno. O jogo foi bastante esquisito e até mesmo surpreendente, os Gunners vinham de uma vitória e um empate, dava mostras de que o ano poderia ser perfeito para Wenger e seus pupilos enfim conseguissem encerrar o jejum. Em Leicester a euforia ainda tomava conta, os torcedores dos Foxes deixariam suas casas para participar da primeira divisão de fato.
Ulloa empata contra o Arsenal no primeiro jogo transmitido para o Brasil no retorno do Leicester a primeira divisão, em 2014. (Getty Images)
O jogo foi bem pegado, o time de azul jogava um futebol muito ousado, deixava o Arsenal com a bola, mas marcava muito bem e conseguia armar contra-ataques fenomenais, digno do que víamos de mais brilhante entre os badalados clubes europeus. O Leicester viu o Arsenal abrir o placar com Sánchez, o embalo de início de temporada era claro, o momento era mesmo aquele, todavia o empate veio muito rápido, 2 minutos após o gol do chileno, um atacante bastante pesado, o argentino Leonardo Ulloa, que não possuía fama, suas limitações eram evidentes, foi capaz de superar a defesa dos londrinos.

A constância foi mantida até o final do jogo, a posse de bola do Arsenal terminou em 68%, era um time mais bem montado, de uma camisa bem mais pesada, mas algo de diferente existia naquele Leicester City. Demoraria algum tempo para o resto da Inglaterra e do planeta perceber que aquela prática de futebol poderia em um futuro próximo dar conta de jogar de igual para igual e até mesmo somar mais pontos que as camisas de gigantes e desbravar as estatísticas, os críticos e as casas de apostas nos anos seguintes...

O emocionado Ranieri participando do
 impossível. (Extraído de Trivela)
Claudio Ranieri, 64 anos, um jogador comum entre as décadas de 1970 e 1980, decidiu se aventurar na carreira de técnico e o seu bom-humor fazia com que os grandes clubes enxergassem nele o perfil ideal para elevar o moral do grupo. Com um início normal em clubes italianos, Ranieri chegou a Fiorentina e ajudou a erguer a Viola, contou com a liderança e o faro de Gabriel Batistuta para vencer a Copa Itália e a Super Copa também italiana, não veio nada mais. Também se aventurou em outras nações, treinou Atlético de Madrid e Valencia na Espanha, faturou a Copa do Rei (1998) e a Super Copa da UEFA (2004) pelos Morcegos, mas jamais conseguiu o feito de Rafa Benítez, vencer La Liga futuramente. Chegou ao Chelsea no início do milênio, um período intenso, os Blues trocariam de mãos e estaria sob comando de um bilionário russo que injetaria muita grana e colocaria os azuis de Londres no topo da Europa em poucos anos.

O projeto ficou complicado para Ranieri, o técnico que acumulava poucos títulos e muita experiência acabou demitido com um saldo bem negativo comandando o novo rico da praça. Saiu de Stamford Bridge pelas portas dos fundos, Abrahmovic chegou a afirmar que técnicos como Claudio Ranieri jamais venceriam uma Premier League, que era homem de mentalidade minúscula para o que a liga inglesa exigia.  Voltou a Espanha e aí herdou o Valencia de Benítez, conquistou a já mencionada Super Copa Europeia, deixou a cidade e decidiu recomeçar em casa, treinou o Parma até ser promovido a Juventus.

Juventus, Roma e Internazionale, passagem por três grandes clubes e não conquistou excepcionalmente nada, esse foi o saldo do simpático senhor italiano no Calcio, deixou o mercado e voltaria ao ostracismo. Conseguiu emprego no Monaco, foi campeão da Ligue 2, mas algo semelhante ao que aconteceu em Londres pelo Chelsea se repetiu, os monegascos foram comprados e Ranieri acabou pulando fora do barco uma temporada após ser vice da Ligue 1. O técnico simpático ainda se aventurou na Seleção da Grécia, ele possuía as características perfeitas para reorganizar o setor defensivo da campeã da Euro em 2004, o saldo foi o mais negativo possível, derrotas (incluindo para Ilhas Faroe) e demissão precoce na primeira tentativa em seleção nacional.

O poder de decisão e a superação da dupla que
 causou em 2015/2016. (Getty Images)
Jamie Vardy nos apresenta uma linda história, marcou muitos gols por onde passou, veio da classe operária, foi preso por revidar a injustiça e o preconceito com a força física. Esperou o tempo certo e explodiu na temporada, é sem dúvida a figura dentro de campo mais incrível do campeão inglês, mesmo suspenso nas rodadas finais e decisivas, Vardy chama para si a responsabilidade e liderança do grupo, existiu algo mais simbólico que a comemoração da inédita conquista em sua residência? Difícil crer que um clube pequenino conseguiu desbravar as grandes instituições e desmantelar o futebol da maior liga europeia da atualidade.

Riyad Mahrez é o primeiro jogador africano a ser eleito o craque da Premier League, ainda possui 25 anos, mas sua jornada até Leicester é pouco conhecida, chegou a ser ridicularizado quando os Foxes o confirmaram como reforço, vindo do Le Havre. Seu momento de auge antes do feito foi curiosamente no Brasil, pertencendo a empolgante Seleção da Argélia, aquela que por muito pouco não eliminou a Alemanha nas oitavas de final em Porto Alegre. Mahrez não entrou em campo naquela noite, mas a memorável campanha argelina impulsionou a afirmação de vários atletas da geração da equipe de futebol mais vistoso do continente africano.

Kanté e Drinkwater, os opostos que
 deslancharam com Ranieri. (Getty Images)
N'Golo Kanté é volante francês, jovem, já havia dado as caras no futebol de seu país, vestindo a camisa do Caen. Chegou a receber sondagens de Olympique e West Ham, aceitou a opção alternativa de jogar em Leicester, mal sabia ele que uma temporada após o ano de estreia seria um marco para a sua carreira. O jogador entraria para a história do futebol mundial no épico de Leicester como um dos protagonistas, se tornando o grande ladrão de bolas da temporada, como o cara de linha que lideraria o sistema defensivo de Ranieri, foi a sintonia perfeita de um jogador destinado a ser grande, diferente dos demais destaques que vinham desacreditados. Seu primeiro título como profissional foi o conquistado e celebrado ontem, Kanté é aquele volante que possivelmente se firmará no futebol, vestirá camisas pesadas, incluindo a da Seleção francesa.

Daniel Drinkwater foi renegado no Manchester United junto a Paul Pogba, fez carreira em clubes de menor porte, rodou as divisões inglesas até estacionar seu ônibus em Leicester. Diferenciado, brigador e até mesmo marcador de gols nas horas vagas, junto a Kanté, Drinkwater fez o clube abrir mão de Cambiasso, fez Inler não ser nem a segunda opção no banco de reservas, só não fez chover, mas realizou o impossível na cidade e também merece o maior respeito possível, se tornará nome de rua em Leicester.

Kasper Schmeichel é filho de um dos maiores ídolos do Manchester United, Peter pouco ligou para a vaidade e história, queria ver seu garoto construir sua própria carreira e o jovem decidiu iniciar seu projeto no clube de maior rivalidade, o Manchester City. Sempre muito contestado, Kasper rodou o futebol inglês e ainda conseguiu ter a chance de retornar aos Citizens, mas novamente acabou criticado. Num vai e volta a Manchester, Schmeichel estabeleceu que  Leicester seria sua morada, de lá não sairia mais e mostraria aos críticos que poderia ter uma carreira sólida sem o brilhantismo de seu pai. O tempo passou e Kasper foi crescendo junto ao seu clube, participou de derrotas e vitórias, a arrancada veio em 2015/2016, onde o camisa 1 fechou o gol e definitivamente largou a sombra de Peter. Kasper necessita de Leicester como Leicester necessita de Kasper, é o casamento mais bonito da conquista do clube, mesmo com histórias mais surpreendentes já mencionadas por aqui.
Deixando a sombra do pai, Kasper é gigante sob as traves do King Power. (Getty Images)
Por fim, temos um conjunto muito bem armado, um time que já jogava bem no ano em que brigou para não cair, a chegada de Ranieri foi marco para a afirmação do Leicester, temos peças que encaixaram num estilo de jogo que privilegia o jogo adversário, mas que consegue armar os botes e tornar o futebol cada vez mais apaixonante e permanecer na moda. Dificilmente o Leicester consiga repetir a campanha, mas o seu feito vai inspirar outros clubes, em outros esportes, em outros instrumentos de humanização da sociedade, desde uma carta escrita até a um inocente festival de pizza que culminou em uma das histórias mais fantásticas da literatura britânica. O Leicester City é campeão inglês pela primeira vez na história, é inexplicável, é inacreditável!

O jogo contra o Arsenal em 2014 não apresenta mais significados que apenas um empate contra um grande clube dentro de casa, mas é aquilo que garantiu a estreia daquele time na televisão brasileira na era moderna. Dois anos depois, o Leicester se torna o time mais querido do planeta, garantindo adeptos até mesmo na Inglaterra, do torcedor do Chelsea que leva placa de apoio a Ranieri, ao Manchester United que se complicou ao empatar com o campeão no Teatro dos Sonhos, porém teve humildade suficiente para aplaudir os bravos guerreiros do pequeno povoado. O time sem rival chegou ao topo e ninguém que está engajado no futebol está triste, é a vitória do esporte, viva o Leicester e que histórias como esta se permeiem por muitos e muitos anos.

Confira na íntegra a carta de Claudio Ranieri durante a jornada do Leicester rumo ao impossível:


Eu lembro do meu primeiro encontro com o presidente, logo que eu cheguei ao Leicester City neste verão. Ele sentou comigo e disse: “Claudio, este é um ano muito importante para o clube. É muito importante que continuemos na Premier League. Não podemos cair!”
Minha resposta foi: “Ok, claro. Trabalharemos forte nos treinamentos e tentaremos conquistar isso”.
Quarenta pontos. Esse era o objetivo. Esse era o tanto que precisávamos para ficarmos na primeira divisão. Para dar aos nossos torcedores outra temporada de Premier League.
Na época, eu nem sonhava que poderia abrir o jornal do dia 4 de abril e ver o Leicester no topo da tabela, com 69 pontos. Ano passado, nesse mesmo dia, o clube estava na última posição.
Inacreditável.
Eu tenho 64 anos, não costumo sair muito. Estou com minha esposa há 40, então, nos dias de folga, procuro ficar com ela. Costumamos ir ao lago perto de casa ou, se estivermos num momento aventureiro, assistimos a um filme. Entretanto, ultimamente, tenho, de fato, escutado o barulho que vem de todas as partes do mundo. É impossível ignorar. Ouvi até nós temos alguns seguidores na América.
Para vocês, eu digo: Bem-vindos ao clube. Estamos felizes em tê-los. Quero que vocês gostem da forma em que nós jogamos futebol e quero que ame meus jogadores, pois a jornada deles é inacreditável.
Talvez vocês já tenham escutado alguns nomes. Jogadores que eram considerados tão pequenos ou tão lentos para outros grandes clubes. N’Golo Kanté. Jamie Vardy. Wes Morgan. Danny Drinkwater. Riyad Mahrez. Quando eu cheguei para o meu primeiro dia de treino e vi a qualidade desses jogadores, eu entendi quão bons eles poderiam ser.
Bem, sabia que teríamos uma chance de sobreviver na Premier League.
Esse tal de Kanté, ele corria tanto que pensei que ele tinha baterias por debaixo de seus shorts. Nos treinamentos, ele não parava nunca.
Tive que dizer para ele: “Ei, N’Golo, vai com calma. Calma lá. Não corra na frente da bola o tempo todo, ok?”
Ele me respondeu: “Sim, chefe. Sim. Ok.”
Dez segundos mais tarde, olhei para ele e lá estava ele correndo de novo.
Eu disse a ele: “Um dia, vou vê-lo cruzando uma bola e você mesmo finalizando seu próprio cruzamento, com uma cabeçada”
Ele é inacreditável, mas não é nosso único segredo. Temos tantos pontos fortes para nomear nesta incrível temporada.
Jamie Vardy, por exemplo. Ele não é um jogador de futebol. É um cavalo fantástico. Ele precisa estar livre no campo. Eu digo para ele: “Você é livre para se mover para onde quiser, mas precisa nos ajudar quando perdermos a bola. Isso é tudo o que eu te peço. Se você começar a pressionar o adversário, todos os seus companheiros vão te acompanhar”.
Antes de jogarmos nossa primeira partida da temporada, eu disse aos jogadores: “Eu quero que vocês joguem por seus companheiros. Nós somos um time pequeno, então temos que lutar com todo nosso coração, com toda nossa alma! Eu não me importo com o nome do adversário. Tudo o que eu quero é que vocês lutem! Se eles são melhores que nós, ok. Parabéns para eles. Mas eles terão de nos mostrar que são melhores”.
Existia uma eletricidade fantástica em Leicester, desde o primeiro dia. Começava com o presidente e passava pelos jogadores, pelo staff, pelos torcedores. Foi inacreditável o que eu senti. No King Power Stadium existia uma energia incrível.
Os torcedores cantam quando nós temos a bola? Ah, não, não, não. Quando nós estamos sob pressão, os fãs entendem nossa dor e cantam com seus corações! Eles entendem a complexidade do jogo e quando os jogadores estão sofrendo. Eles são muito, muito próximos a nós.
Nós iniciamos a temporada muito bem. Mas nosso objetivo, repito, era salvar o clube do rebaixamento. Nos primeiros nove jogos, nós estávamos ganhando, mas sofríamos muitos gols. Tínhamos que marcar dois ou três gols para ganhar todo jogo. Isso me preocupava muito.
Antes de todo jogo, eu dizia: “Vamos lá, pessoal! Quero um clean sheet* hoje.”
Nenhum clean sheet. Eu tentei todo tipo de motivação.
Então, finalmente, antes do jogo contra o Crystal Palace, eu disse: “Vamos lá, pessoal! Eu pago uma pizza se vocês conseguirem não sofrer gol hoje”.
Obviamente, meus jogadores conseguiram o clean sheet contra o Crystal Palace. Um a zero.
Cumpri com minha promessa e levei meus jogadores ao Peter Pizzeria, na Leicester City Square. Mas eu guardei uma surpresa, para quando eles chegassem lá. Eu falei: “Vocês têm trabalhado por tudo. Vocês vão trabalhar por suas pizzas também. Nós mesmos a faremos”.
Fomos para a cozinha com a massa, o queijo e o molho. Fizemos tudo. Estava muito bom, também. Comi várias fatias. O que posso dizer? Sou italiano. Eu amo minha pizza e minha massa!
Agora, temos um monte de jogos sem sofrer gols. Na verdade, uma dúzia de clean sheets depois da pizza. Não acredito que seja coincidência.
Faltam seis jogos e temos que continuar lutando com nossos corações e nossas almas. É um clube pequeno que está mostrando ao mundo o que pode ser conquistado através de espírito e determinação. Vinte e seis jogadores. Vinte e seis cérebros diferentes. Mas um só coração.
Alguns anos atrás, muitos dos meus jogadores estavam em ligas menores. Vardy trabalhava em uma fábrica. Kanté jogava na terceira divisão francesa. Mahrez estava na quarta divisão da França.
Agora, nós estamos lutando por um título. Os torcedores do Leicesters que eu encontro nas ruas dizem que eles estão sonhando. Mas eu digo a eles: “Ok, sonhem por nós. Nós não sonhamos. Nós simplesmente trabalhamos pesado”.
Não importa o que aconteça no fim desta temporada, eu penso que nossa história é importante para todos os fãs de futebol por todo o mundo. Isso dá esperança para todos os jovens jogadores que já escutaram que não são bons o suficiente.
Eles podem dizer para eles mesmos: “Como eu posso chegar no topo? Se Vardy conseguiu, se Kanté conseguiu, talvez eu também consiga”.
Do que você precisa?
Um grande nome? Não.
Um grande contrato? Não.
Você precisa apenas manter a mente aberta, o coração aberto, as baterias recarregadas e correr livre.
Quem sabe? Talvez, ao final da temporada, nós teremos duas festas da pizza.
E viva a festa da pizza, viva a conquista do Leicester! (Extraído de Blog Superaposta)