sexta-feira, 1 de abril de 2016

Era uma vez uma Seleção...

Enraizado na cultura tupiniquim, o futebol é mais que um jogo, ultrapassa as quatro linhas e se iguala a rituais sagrados mundo à fora. Todo brasileiro que se permite apaixonar pelo esporte cresce testemunhando o poderio invejável e inigualável da Seleção brasileira, a mística da camisa amarela, as cinco estrelas de Copa do Mundo e a arte do futebol arte mexe com a população dos quatro cantos da Terra, serve de inspiração e também faz temer. Brasil de Pelé, Garrincha e Amarildo, de Romário, Ronaldo e Tostão, de Rivaldo, Zico e Falcão, de Roberto Carlos, Cafu e Carlos Alberto, de Ronaldinho, Kaká e Neymar. São muitos os grandes nomes que passaram pela centenária equipe canarinha, a lista continua, mas péssimas administrações comprometem a pesada camisa amarela e resulta em trabalhos decepcionantes por parte das mais variadas comissões técnicas.
Dunga observa e participa atento mais um capítulo da tragédia CBF. (Foto: Cisco Nobre)
O ano de 2006 foi um ano bastante marcante para a história gloriosa do futebol do Brasil, a geração que encantava o mundo e destruía tudo o que enfrentava parou diante da melhor partida, como jogador, de Zinedine Zidane. O gol de Henry encerrou o trabalho de Carlos Alberto Parreira, sacramentou o adeus ao Quadrado Mágico e o fim daquilo que ainda restava de cultural na forma de jogar de nosso representante no mundo. Não que o trabalho de Parreira tenha sido uma maravilha, pelo contrário, se baseou no talento indiscutível dos craques, em especial Ronaldinho que brilhava pelo Barcelona na época. Buscando culpados pela noite fatídica que mandou para o espaço o sonho do hexa, mídia e torcida escolheram culpados, o meião de Roberto Carlos, a forma física e preguiçosa de Ronaldo, e principalmente as festas nos gramados dos treinos da Seleção, se via espetacularização em meio a uma Copa do Mundo para lá de equilibrada.

Com uma propaganda de "queremos mais paixão", a Confederação Brasileira de Futebol trouxe um comandante com traços ditatoriais para colocar os jogadores na linha... Será mesmo que os atletas eram os verdadeiros culpados pelos treinos abertos na Alemanha? Dunga foi privilegiado pela política de apadrinhamento da Confederação, o capitão da épica jornada do tetra jamais havia trabalhado como técnico e depositou sua total confiança em Jorginho, amigo pessoal, seria uma trajetória inédita para ambos. A Seleção foi completamente reformulada, nomes cascudos não mais voltariam, com exceção de Kaká que ainda era jovem e despontava de fato para o futebol, foi o pilar de toda a primeira passagem de Dunga, foi o nosso camisa 10, o último brasileiro a ser eleito melhor do mundo.
Neymar cobra falta com maestria, mas o gol da
 vitória não veio. (Foto: Cisco Nobre)

O aproveitamento de Dunga foi bem razoável para um primeiro trabalho como treinador... Foi mesmo?  Se conquistou a Copa América 2007, aos trancos e barrancos o time brasileiro conseguiu fazer um ótimo jogo de final contra a Argentina, apenas! Também foi vencida a Copa das Confederações 2009, o teste para a Copa da África foi repeteco do sofrimento na Venezuela, vitória muito dolorida contra os Estados Unidos na finalíssima, 3 a 2 com gol chorado de Lúcio. Mais do que números, colocar o maior produto do nosso futebol nas mãos de um homem sem preparo para assumir o posto foi um duro golpe para a nossa cultura, os veículos massivos internacionais já noticiavam a tragédia do 7 a 1 muito antes dela acontecer. O Brasil deixou de jogar bem, apenas sobrevivência do treinador e o resultado imediato foi buscado, o projeto não mais existia e Dunga montou a Seleção mais velha da Copa da África 2010 e pior, sem nenhum nome cascudo que pudesse ajudar a encorpar esse velho time, um pecado!

A derrota para a Holanda em Porto Elizabeth representou o fim da primeira Era Dunga, o futebol bonito no primeiro tempo iludiu o torcedor, o Brasil e sua camisa pesada poderiam ter levado a equipe as semifinais, mas o destino e a justiça nos eliminaram de virada para os holandeses. Quatro anos mais tarde e novamente nas mãos equivocadas, a Seleção protagonizou o maior vexame de sua história, 7 a 1 dentro de casa para a Alemanha, o mesmo país onde o Brasil enterrou os resquícios de futebol bem jogado. Para o lugar de Felipão, os donos da bola na CBF elaboraram uma ideia de gênio que confrontava até mesmo a grande parceira de sua ilícita administração, nem mesmo a Rede Globo gostou da ideia de dar uma nova chance a Dunga, o técnico que nunca foi técnico.

Nova tragédia aconteceu, não tão grosseira como o 7 a 1, porém o estilo Dunga de não saber comandar um time compromete diretamente o time 3 anos antes do Mundial da Rússia. O planejamento é ainda mais atropelado que o de 2006-2010, Dunga não possui um Jorginho, a função de Gilmar Rinaldi é de coordenador de seleções e observamos um rodízio no cargo que o atual técnico do Vasco conseguiu cumprir com eficiência. Vale até mesmo o destaque, Jorginho foi a única coisa de positivo na primeira passagem de Dunga pela Seleção. O Brasil possui nomes de qualidade, Neymar já foi eleito o terceiro melhor jogador do mundo, Coutinho é a joia de um Liverpool que projeta retornar ao topo da Inglaterra, Lucas já consegue barrar Cavani num PSG que cresce de produção e Jonas disputa a Chuteira de Ouro no Velho Continente contra nomes como Higuaín e Cristiano Ronaldo.
Apesar dos pesares, há uma boa geração no time pentacampeão. (Foto: Cisco Nobre)
Com todos os pontos positivos que ainda temos em nossa cultura e geração, por que o time joga o pior futebol do novo milênio? O Brasil perdeu mesmo sua identidade? A geração é ruim? Duvido muito, apenas colhemos os frutos da primeira passagem com um toque de equívoco de Felipão e Parreira, os resultados já não são obtidos como antes e só nos resta o jogo pelo resultado, o nervosismo precoce de time de menor porte, o domínio de nosso sistema tático pelo adversário, com destaque para a rodinha do Paraguai para cima dos brasileiros. É óbvio que apostar em Dunga e Gilmar foi mais um equívoco da Confederação, enquanto os grandes políticos que administram o nosso futebol se escondem das investigações nacionais e internacionais, a nossa bola é castigada e o projeto se vê engavetado. A tragédia não está anunciada, ela está em andamento e é o nosso futebol que está sofrendo, o símbolo de nossa cultura respira por aparelhos e se contenta com gols aos 47 minutos contra um Paraguai sem perspectiva.

Era uma vez uma Seleção...