terça-feira, 22 de julho de 2014

Aquele jogo contra a Holanda é um excelente resumo.

Se eu falar que Carlos Caetano Bledorn Verri é o novo treinador da seleção, provavelmente vão contestar e emendar algum “Quem é esse que eu nunca ouvi falar?”. Se eu informar que ele já foi treinador nosso, devem me perguntar se eu não estou brincado. Se eu adicionar que ele já foi campeão mundial com o Brasil, acredito que a curiosidade finalmente vai levar à indagação que porá fim a toda esta introdução: Quem é?
O jogo do ponto final, virou reticências... (Reuters)
Carlos Caetano tem um apelido, que o fez conhecido em todo Brasil. Ele responde por Dunga, capitão do tetra, capitão em 98 e técnico do Brasil em 2010. Eu não vou entrar no detalhe do caráter pessoal de Dunga, que cumpre a atividade de escudo para todos os ataques em cima das falcatruas e péssimas escolhas que a entidade “gerenciadora” do futebol brasileiro. Sim, Dunga é aquele militar turrão que não sabe cumprir ordens, eles precisam disso. Porém, eu quero falar como Dunga treinador da seleção, é nisso em que o jogo contra a Holanda vai nosajudar a relembrar um pouco o ciclo do fim de 2006 até o meio de 2010.

Dunga pegou uma seleção que ficou marcada pela apatia, pela bagunça, falta de disciplina e comprometimento com a causa da seleção. Escolheu alguns jogadores, deu chance a praticamente todos que surgiram no seu ciclo até 2009 (Neymar e Ganso estouraram só em 2010) e foi riscando aqueles que não se encaixavam com o perfil do grupo. O time era inconsistente! Mostrava que tinha uma defesa segura, dura, de bom tempo de bola e que conseguia mostrar poder ao ataque adversário. Porém, do meio pra frente o time era apático, desconjuntado, dessincronizado e sem criatividade. Gols? Basicamente se lances individuais e nada mais. Resultados? Duros! Placares magros, futebol feio (do meio pra frente) e muito questionamento. Principais lembranças?

Duas: uma positiva e uma negativa. Respeitando a ordem cronológica, vamos falar da boa que foi a final da Copa América de 2007. O Brasil foi contestado durante a competição, principalmente por conta da derrota contra o México, uma vitória que não convenceu contra o Equador e uma batalha que terminou nos pênaltis contra o Uruguai. As criticas eram as mesmas, o time não tem criatividade! Só saber defender e muito pouca criatividade. E enfrentaríamos uma Argentina completa, que trucidou todos os adversários! Contava com um time altamente ofensivo e com um super elenco (Milito, Ayala, Masch, Veron, Riquelme, Tevez, Messi, Crespo, Cambiasso, Zanetti e etc). O clima de “já ganhou” tinha sido espalhado na Argentina e chegou ao Brasil com um tom de que era impossível a vitória brasileira pela nossa própria mídia. Bem, Dunga provou o contrário e meteu um 3x0 em que a seleção foi bem dominante e, aquele jogo, mostrou que o Brasil seria em sua fase boa. Mas antes vem a má, que foram as olimpíadas de 2008, em que sofremos um revés doloroso contra nossa principal rival Argentina. Um 3x0 em que não vimos à cor da bola, em um campeonato em que não fizemos uma única partida convincente. Este é exatamente o segundo tempo da partida contra a Holanda.

Até hoje não sabemos bem explicar o porquê de Dunga não ter sido demitido após o fracassado ano de 2008, mas o que eu posso afirmar é que ele deu a volta por cima. A seleção venceu o Uruguai por 4x0 em pleno centenário, foi muito convincente na vitória contra o Paraguai, ganhou a Copa das Confederações mostrando que tinha um time forte e carimbou a ida à África do Sul com um 3x1 mágico contra a Argentina em Rosário. O Brasil mostrou ser forte, encontrou um estilo de jogo que não se mostrava vistoso, mas era muito cirúrgico, fazendo trazer confiança para o time. A defesa, que nunca mostrou fragilidade, era o pilar instransponível do grupo. A geração não era a mais talentosa, mas Dunga achou espaço para todos! Aproveitou-se da excelente fase de Júlio César, Maicon, Juan e Lúcio para deixar claro que eles eram nossa referência. Encaixou Felipe Melo na cabeça de área para garantir a proteção e uma excelente saída de bola. Ramires virou seu companheiro para dar velocidade na transição de jogo. Elano era o homem responsável por distribuir passes e se aproximar à área para usar sua boa capacidade de finalização. Além de Kaká e Robinho carregando a bola pelos lados e com um Luis Fabiano que estava fazendo gol de todos os jeitos! O calcanhar de Aquiles da seleção estava na lateral esquerda, que não teve um nome que convencesse durante os quatro anos.

Então, desse time, lembro-me de um padrão de jogo nítido e que não permitia erros. O Brasil compensava a falta de criatividade com uma postura em campo que não dava espaços aos adversários, sendo muito rápido e vertical na transição, que sabia o que fazer quando tinha a bola nos pés, e que, com um futebol feio ou não, tinha encontrado uma forma de vencer. É verdade que o Brasil se complicava com times que eram retrancados, mas tampouco perdia para eles. É verdade que Kaká estava longe da forma física ideal e que isto minou seu jogo durante a copa. Também é verdade que Felipe Melo era um descontrolado, mas ele apostou neste risco. Ele levou os jogadores que ele confiava, mesmo não sendo os maiores craques, mas ele apostou nesse risco. Ele sempre falava que o grupo estava fechado porque a maioria ficou a maior parte do tempo com os mesmos jogadores, e apostou nesse risco. E quer saber? Eu também apostei. Por que o time de Dunga que eu tinha fé, foi o time do primeiro tempo da Holanda, em que a Laranja foi amplamente dominada pela Amarelinha.
O tempo é outro, o objetivo é o mesmo. (Tribuna do Cisco)
Isso não quer dizer que eu queria Dunga de novo na seleção, principalmente quando aclamamos por uma renovação total da gestão do nosso futebol. Só que, se ele foi o escolhido, que enalteçamos os pontos positivos e possamos lembra-lo aquilo que deve ser melhorado. Eu acho que Dunga pode fazer um bom trabalho, assim como fez na sua última passagem. Dunga tem uma geração em mãos melhor do que a passada! Muito mais talentosa! E precisa aproveitar isso para encontrar uma maneira de vencer e convencer como fez em alguma parte da sua primeira passagem. Mas ele sabe que o peso será redobrado, que as cicatrizes deixadas foram todas colocadas à amostra agora e isso vai acontecer em cada decisão controversa (uma que eu considero sábia, ele não vai ficar a frente da seleção olímpica, que terá como chefe Alexandre Gallo). Ano que vem tem Copa América que será os únicos jogos oficiais do time, sorteio das eliminatórias que tá com cara de ser bem mais difícil que nos últimos anos.   

Gostando ou não, Dunga foi a indicação. Não tem mais volta, agora é torcer para que realize um trabalho excelente, porque o primeiro, querendo você ou não, foi bom!