terça-feira, 2 de julho de 2013

A alma inconquistável do esporte

Para diversos grandes pensadores da filosofia política, algumas coisas são, indubitavelmente, intrínsecas ao ser humano. Mais do que a necessidade de socializar-se, mais do que o sentido de organização e desenvolvimento, o ser humano é um competidor nato. Para outros tantos, mais realistas, o homem é um guerreiro e a guerra é um dos elementos mais naturais da sua existência. O conflito seria uma das mais extremas, porém factíveis interações sociais. É óbvio, ou pelo menos de fácil observação que, em alguns aspectos, a própria guerra não passa de uma grande competição, em que, ao invés de pontos ou partidas, territórios e vidas é que são ganhos ou perdidos. Se tomamos, como atividades naturais do homem competir e guerrear, por que será que, por tantas vezes, a batalha se apresenta como tão preponderante sobre o esporte? Bem, é possível que encontremos certas ocasiões que indiquem para um brilho de esperança, ou a percepção de que, às vezes, apenas não estamos observando para os exemplos adequados. Listamos, abaixo, momentos em que o esporte se sobressaiu e fez frente à mais desumana das competições.


Introdução por Fábio Nobre

Veja alguns exemplos de que, mesmo em momentos difíceis, o esporte pode mudar o mundo. (Deviantart)

Antes de entrar para a história da humanidade, Hitler fez Berlim sediar os Jogos Olímpicos

O 3° Reich crescia a cada ano, mas em 1936, o regime nazista virou o grande foco do mundo esportivo,eram as Olimpíadas de Berlim. O estádio Olímpico de Berlim fora desenvolvido pelos melhores engenheiros alemães para propagar a “perfeição” que o nazismo traria ao mundo. Antes do evento começar, um memorando secreto advertia todas as forças de segurança, dizia que: "O desenvolver grandioso e sem incidentes dos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, é da maior importância para a imagem da nova Alemanha aos olhos de nossos convidados estrangeiros", mensagem que amedrontava cada um só em ler.

Jesse Owens leva o ouro e
entra para a história do esporte. (PBS)
O evento foi um sucesso, com mais de três milhões de telespectadores, isso graças a inovação da época, foi o primeiro evento esportivo transmitido pela televisão. Contudo os fatos mais marcantes das Olimpíadas foram protagonizados por dois atletas afro-americanos, primeiro, Cornelius Johnson venceu a prova de salto em altura, conquistando o ouro. Revoltado com o resultado, Hitler deixou o estádio para nunca mais voltar, ele tinha que apertar a mão de cada vencedor e só havia apertado de um finlandês e um alemão.

O pior para o 3° Reich ainda estava por vir, o segundo afro-americano fez melhor ainda, Jesse Owens conquistou nada mais nada menos que quatro medalhas de ouro, a primeira veio nos 100 metros rasos, deixando um alemão na segunda colocação, ousadia ou não da parte do americano? Ele fora aplaudido por várias nações presentes no estádio, um dos momentos mais épicos da história do esporte. Owens ainda venceu os 200 metros rasos, os 4x100 metros rasos e o salto em comprimento, foi o grande destaque das Olimpíadas de 1936, abalando o nazismo.

“Minha maior vitória não foi contrapor Hitler, e sim abalar com a noção racista da nação americana no século XX” Essas foram as palavras de Jesse Owens em sua biografia. Foi mais uma grande vitória do esporte, provando que sim, ele pode deixar a guerra em segundo plano e unir diversas raças. Berlim foi o último evento esportivo antes da Grande Guerra, na Alemanha, já se ouvia rumores de uma devastação que viria por toda a Europa. Em 1939 os confrontos começaram e as Olimpíadas de 1940 (Tóquio) e 1944 (Londres) foram cancelados.

Futebol pára a Segunda Guerra, mas no jogo da morte, Hitler sai vencedor

O FC Start trouxe alegria para um povo sofrido.
(Domínio público)
Com a Segunda Grande Guerra (1939-1945) em pleno vapor, as copas do mundo e boa parte do futebol pelo mundo tiveram de ser paralisados. Em 1941, os alemães decidiram invadir a União Soviética, quebrando um tratado e deixando milhares de mortos. Nesse cenário, a Ucrânia, que era território soviético, foi ocupada por soldados nazistas, um sistema mais opressor que o do próprio Stalin.

Vivendo um verdadeiro caos e clamando por tempos de paz, o Dínamo de Kiev (clube mais popular da Ucrânia), que era formado funcionários de uma padaria da capital do país, teve que mudar de nome para desviar os holofotes, foram “batizados” de FC Start e decidiram fazer do futebol a melhor forma de encontrar a paz e aliviar o sofrimento do povo, que passava fome e outras dificuldades. Com os alemães não dando importância aos “padeiros jogadores”, o Start entrou num campeonato local e enfrentou vários times, não só vencendo, como goleando todos os adversários.
O jogo da morte foi vencido pelo Start.
(Domínio público)

Aí não teve jeito de desviar as atenções, o exército alemão, revoltado com a “felicidade” do povo decidiu entrar no campeonato e disputar uma partida contra o Start. O Flakelf, time do exército alemão estava até então invicto e foi enfrentar os ucranianos só para mostrar seu domínio. Antes de a partida começar, os padeiros foram obrigados a fazer a famosa saudação nazista "Heil Hitler!", mas, num ato de rebeldia e liberdade, eles fizeram outra saudação, a "Fizsculthura!" ou cultura física, que significa “vida longa ao esporte!”.

O resultado foi satisfatório para o povo, 5 a 1 para os ucranianos e revolta para os alemães que não acreditaram no que viram, resultado: um novo jogo foi marcado e chamado de  “a vingança”. Na “vingança”, o Start novamente venceu, com apoio total das arquibancadas, apesar da ajuda do árbitro para os alemães, o time goleou por 5 a 3. Foi a gota d’água, os soldados, revoltados com a ousadia dos adversários, prenderam os jogadores.

Os atletas foram aprisionados e torturados, quatro deles foram mortos, os outros feridos nunca mais conseguiram jogar futebol, a partida foi apelidada de “o jogo da morte”. Apesar do final trágico, os jogadores, por meio do esporte, conseguiram mudar um pouco o panorama da guerra, vencendo o nazismo e colocando como foco principal um simples campeonato amador, voltando a sorrir, provando que sim, o esporte muda o mundo.

TODAS AS PARTIDAS DO F.C. START:

21 de junho - FC Start 6x2 Guarnição húngara
05 de julho - FC Start 11x0 Guarnição romena
12 de julho - FC Start 9x1 Militares do batalhão ferroviário
17 de julho - FC Start 6x0 Exército da Wehrmacht
19 de julho - FC Start 5x1 MSG (Exército Húngaro de Ocupação)
21 de julho - FC Start 3x2 MSG (Exército Húngaro de Ocupação)
06 de agosto - FC Start 5x1 Flakelf (Exército Alemão, até então invicto)
09 de agosto - FC Start 5x3 Flakelf - 36 mil ucranianos no estádio

No “mar de mortos” congolês, Pelé desafia a ditadura e paralisa a guerra civil

Era 1969, enquanto o Santos de Pelé encantava o mundo, o antigo Congo Belga vivia tempos terríveis, uma ditadura liderada por Mobutu Joseph Désiré, que mudou o nome do país para Zaire (atual República Democrática do Congo). O país servia de exploração por parte dos belgas, que levavam todas as riquezas e deixaram milhares famintos e desabrigados, fato que levou Désiré a dar o golpe no país.

Pelé interrompeu uma guerra nos anos 60. (DNA Santástico)

Com a ditadura no poder, o caos se instalou, eram crianças no exercito, fome, doenças e misérias, foi chamado de “mar de mortos”, todavia a guerra civil viu seu fim, o motivo foi à chegada de Pelé e seus companheiros ao país, a fim de acabar com o problema. Toda a população foi liberada para ir ao estádio, foi uma bonita festa, o Santos venceu por 2 a 1 a seleção local, mas o resultado pouco importou, quem venceu foi o futebol, que virou sinal de paz por interrompeu com uma guerra.

Mandela usa o esporte, une as raças e acaba com a segregação

Foram vinte e sete anos de prisão, o apartheid ainda atrapalhava os rumos de um país em busca de igualdade e justiça, de um lado, os brancos e uma melhor condição de vida, do outro, os negros que sofriam com a miséria e a fome, esse era o cenário da África pré-Mandela. O ano era 1995, o rugby era o esporte mais popular da população branca da África do Sul, contudo o país jamais havia conquistado um título mundial. Era o ano em que a África do Sul receberia a Copa do Mundo de rugby. Mandela foi solto em 1990 e eleito presidente em 1994, prestes a receber a Copa do Mundo.
Mandela usa o esporte como meio principal para acabar com a segregação. (People pirassununga)

Com o fim da segregação, as pessoas ainda estranhavam a “mistura” racial no país, por exemplo, o time de rugby era completamente preenchido por jogadores brancos, entretanto um dos atletas sulafricanos se lesionou, então o técnico George Moir Christie (nascido em Joanesburgo) teve que convocar outro jogador. As surpresas que essa copa traria a África começaram aí, Christie convocou Chester Williams, um negro jogando rugby? Causou certo constrangimento em parte da população branca, mas Williams não decepcionou ninguém.

A África do Sul iniciou sua trajetória contra os australianos, a vitória por 27 a 18 deixou o povo mais tranqüilo e livre da tensão de sediar uma copa. O povo estava em festa, até a parte negra do país parou para acompanhar o esporte “exclusivo” dos brancos, claro que simpatizando mais com Williams. O segundo jogo foi mais tranqüilo, o time enfrentou a Romênia, o placar de 21 a 8 garantiu a classificação africana para a segunda fase, mas ainda teria que cumprir tabela contra o Canadá. Não foi nenhum problema enfrentar os canadenses, pelo contrário, o time levou o estádio abaixo ao vencer os norte-americanos por 20 a 0, com um show particular do destaque do time na primeira fase, Joel Stransky caiu nas graças do povo.

Invictos, os sulafricanos entraram na segunda e última fase abraçados pelo povo, Nelson Mandela, o então presidente do país parou para acompanhar a seleção, apertando a mão de cada jogador antes das partidas, um ato que motivava os jogadores e empurrava a torcida para apoiar.  A Samoa Ocidental era um time mais fraco que os que a África do Sul já tinha enfrentado, ou seja, Stransky e Cia não tiveram problemas em despachar Samoa para casa, 42 a 12 e vaga na semifinal garantida. A semifinal fora contra a França, uma partida acirrada, que deixou a maioria da população tensa, a vitória foi por 19 a 15, esses quatro pontos colocaram a África do Sul na final da Copa do Mundo em sua casa, era para entrar de vez para a história do esporte.

A história foi as telas de cinema em 2009. (Movie Sense)
Enquanto a África encantava o mundo, do outro lado havia uma Nova Zelândia acabando com todos os seus adversários, os All Blacks (apelido do time neozelandês) eram considerados o melhor time de rugby de todos os tempos e sempre assustavam os outros times. O time já havia vencido a Irlanda, o Japão e o País de Gales na primeira fase.  Na fase final, um jogo duro contra a Escócia e uma vitória simples contra a Inglaterra colocaram a Nova Zelândia na grande final, um páreo duríssimo para a África do Sul.

Dias antes da grande final, Nelson Mandela convidou o capitão do time para uma conversa privada, François Pienaar admitiu o nervosismo ao ser chamado pelo presidente. Na conversa, Mandela agradeceu a Pienaar por tudo que ele fez e ainda pediu um último favor, o título mundial. Poucos acreditaram, muitos previam uma vitória tranqüila dos neozelandeses, o país parou para a grande final da Copa do Mundo. Negros e brancos unidos para o jogo mais fantástico da história do esporte, a África ficou na frente, a Nova Zelândia virou, a partida teve de tudo, mas nos minutos finais, Pienaar chamou o time para uma rápida conversa, mostrou o que a vitória representaria para o país. Os jogadores, motivados por um bem maior, foram bravos e conseguiram virar resultado, a vitória por 15 a 12 decretou o primeiro título da África do Sul e, pela primeira vez, brancos e negros se uniram e se chamaram de irmãos, uma atitude de humildade e respeito.

Nos dias de hoje, a África do Sul já tem dois títulos mundiais de rugby e se estabilizou como potência no esporte. A segregação ainda existe, só que indiretamente, apesar disso, o país melhorou bastante, inclusive sediou a Copa do Mundo de futebol em 2010, o resultado não foi satisfatório como em 1995, mas novamente negros e brancos estavam unidos, dessa vez para o esporte dos negros.

Todos juntos pelo título espanhol

Em 2010, a África do Sul voltou ao cenário mundial, porém, dessa vez outro país iria aparecer para o mundo, à Espanha. O time já havia vencido a Eurocopa (competição disputada por países europeus), a Copa do Mundo sempre foi a grande ambição de todos por lá e sabiam que a hora era essa. Vicente Del Bosque (técnico da seleção espanhola) anunciou a convocação mesclando metade de Madri e metade de Barcelona, com alguns jogadores de outros lugares, mas um deles foi quem mais chamou atenção, Javier Martínez e Fernando Llorente representaram o País Basco na Copa da África.
Unidos por uma causa! Espanha levanta a taça de campeão mundial.

O País Basco está localizado no norte da Espanha e no sudoeste francês, são famosos por ter uma cultura própria, com um forte movimento nacionalista, a língua falada é o euskara. Em 1959 se iniciou um processo em busca da independência, o radical grupo ETA enfrentou a ditadura na Espanha e várias mudanças políticas, conquistando autonomia e respeito. Vários atentados e muitas mortes foram protagonizados pelo grupo que clama pela independência. Em 2011, o grupo anunciou o cessar-fogo permanente, óbvio que a copa do mundo não foi o fator crucial para o fim dos ataques, mas a presença de Javi Martínez e Llorente foram muito importante para a união dos Bascos com o resto da população espanhola.

Menos violento que o ETA, a Catalunha luta pelo mesmo objetivo, a independência. A região que tem como capital a cidade de Barcelona também tem uma língua própria e em todo jogo do Barcelona, os fanáticos cantam o hino catalão em forma de protesto. Contudo os jogadores catalães foram os grandes responsáveis por reformular o futebol espanhol e colocar a seleção no cenário mundial. O grande conflito com a cidade de Madri é uma questão política, disputam uma briga ideológica, econômica e cultural. No futebol não é diferente e todas essas questões são ampliadas pela emoção, Real Madrid e Barcelona é o maior clássico de futebol do mundo.

Martínez e Llorente beijam a taça de campeão da Europa, dupla representa o País Basco. (El Cuerpo Tecnico)
Na Copa do Mundo de 2010, madrilenhos, catalães e bascos se uniram pelo maior título da história do país, a Espanha conquistou a copa jogando bem e implantou uma dinastia no futebol mundial, é espelho para todos os outros países e mais temida também. Foi o último acontecimento esportivo que uniu e ainda une a população, mas não há dúvidas em que o esporte pode mudar o mundo.


Invictus - William Ernest Henley


Do fundo da noite que me envolve
Escura como o inferno de ponta a ponta
Agradeço a qualquer Deus que seja
Pela minha alma inconquistável

Nas garras do destino
Eu não vacilei nem chorei
Sob as pancadas do acaso
Minha cabeça está sangrenta, mas ereta

Além deste lugar tenebroso
Só se percebe o horror das trevas
E ainda assim, o tempo,
Encontra, e há de encontrar-me, destemido

Não importa quão estreito o portão
Nem quão pesado os ensinamentos
Eu sou o mestre do meu destino
Eu sou o comandante da minha alma