domingo, 16 de junho de 2013

Guia Básico Sobre o Ciclismo (Parte 2)

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Continuação da Parte 1.
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As provas por etapas, por sua vez, podem ser dividias entre as preparatórias para as Grandes Voltas Ciclísticas, e as Grandes Voltas propriamente. Isso porque algumas delas, como a Paris-Nice (7 etapas), a Tirreno-Adriático (competição italiana composta também por 7 etapas, tem esse nome pois os ciclistas atravessam o país, saindo de um mar ao outro) e a Critérium du Dauphiné (competição francesa de 8 etapas e em data próxima ao Tour de France), são encaradas como preparatórias para as grandes voltas. Sendo o ciclismo um esporte de resistência, a forma física é adquirida de uma única forma, portanto - pedalando. Por isso que a participação em provas de etapas "preparatórias" é muito importante para se adquirir o condicionamento demandado nas Grandes Voltas.  

  • Tour de France
Percurso da edição centenária do Tour. (Le Tour)



No calendário do World Tour, o Tour não é a primeira Grande Volta, mas com certeza é a mais grandiosa e tradicional delas. Afirma-se que é um evento esportivo sequencial cuja audiência televisiva perde apenas para a Copa do Mundo de futebol, sem contar, é claro, no carnaval à parte que os espectadores de beira de estrada promovem! Tradicionalmente tem início no fim de junho, com o encerramento em julho. São, em geral, 21 dias de competição, percorrendo mais de 3 mil km (este ano o traçado será exclusivamente em solo francês), com apenas dois dias de repouso entre etapas! No presente ano ocorrerá a sua edição centenária, logicamente aguardada com muita antecipação. Por ser a mais antiga Volta Ciclística, as demais competições por etapa inspiraram-se nela.

Trailer oficial da edição 2013 do Tour de France.

Por se tratar de uma competição por etapas, o campeão do Tour é aquele ciclista cujo tempo agregado de todas as etapas for o menor dentre os demais. Isso implica na necessidade de regularidade ao longo de todas as 21 etapas da competição. Via de regra, um campeão do Tour vence poucas etapas, ou pode mesmo não vencer nenhuma delas. O trabalho em equipe, bem como as estratégias para tal, são fundamentais para buscar a vitória ao capitão de cada equipe. Existem basicamente 3 perfis diferentes de etapas numa Volta como o Tour: as etapas planas (e por isso mesmo com extensões pouco menores que 200km), que normalmente não provocam uma alteração na classificação geral, a não ser em caso de queda (o que é comum nesse tipo de etapa) envolvendo candidatos diretos ao título; as etapas de montanha (em geral cerca de 50km menores do que as planas), que de fato espalham o pelotão, gerando assim as diferenças nos respectivos tempos da classificação geral; as etapas de contrarrelógio (ver parte 1 deste guia) que juntamente com as etapas de montanha são as geradoras de diferenças nos tempos entre os atletas.

Os vencedores das camisas especiais da edição de 2012. Da esquerda para a direita: Tejay van Garderen (BMC); Bradley Wiggins (Sky), o campeão daquele Tour; Peter Sagan (ex-Liquigás, atual Cannondale) e Thomas Voeckler (Europcar). (ESPN)
 
Para facilitar a identificação do líder da competição em meio ao "mar" de ciclistas, o Tour criou a famosa Camisa Amarela, uma referência ao patrocinador original da prova. Posteriormente surgiram outras camisas, para identificar vencedores de competições internas no próprio Tour, como é o caso da Camisa Branca (o melhor classificado entre os estreantes num Tour), da Camisa Verde (para o ciclista que mais pontuou ao vencer as etapas ou os sprints intermediários - os "checkpoints" ao longo de cada etapa), e da Camisa Branca com Bolinhas Vermelhas (para o ciclista de melhor performance em etapas de montanha). 

Paris é onde a jornada termina. A última etapa do Tour desfila pela Champs-Élysées, onde há a disputa da etapa, mas não mais pelo título. (Daily Telegraph)


Por fim, existe a regra dos últimos 3km. Como o risco de uma queda é sempre alto na disputa pela vitória de uma etapa plana, visto que em trechos planos a tendência que que todos os ciclistas da prova estejam em um mesmo grupo compactado, para que não se prejudique os eventuais envolvidos no acidente, a regra estabelece que ao cruzar a linha que define os últimos 3 km do dia, independentemente do que vier a ocorrer, todos os ciclistas pertencentes a um grupo que a cruzou têm os seus respectivos tempos registrados por igual, tendo por base o tempo estabelecido pelo primeiro ciclista de seu grupo a cruzar a linha de chegada.

  • Giro D'Itália
Cartaz promocional da competição, enfatizando o quão disputado é o dificílimo Giro. (Team Vision Racing)
A primeira Grande Volta do calendário, que ocorre ao longo do mês de maio, é considerada por muitos como a mais difícil de todas, em virtude de suas míticas montanhas. Segue a mesma lógica e dinâmica do Tour de France: competição sequencial por etapas (21 em geral, igualmente, intervaladas por 2 dias de repouso); contém etapas planas, etapas de montanhas e etapas de contrarrelógio; trabalho em equipes; também estabelece a regra dos 3km finais; e distribui camisas especiais a atletas, na mesma lógica do Tour, porém em cores diferentes. O grande diferencial para a edição de 2013 foi o retorno da bonificação de tempo para os 3 primeiros ciclistas a cruzarem a linha de chegada de cada etapa. Ou seja, ao primeiro ciclista é dado um desconto ao seu tempo agregado em 20 segundos, ao segundo colocado o desconto é de 12 segundos, e ao terceiro são 8 segundos. Mantinha o costume de realizar a útlima etapa em Milão, porém a edição de 2013 terminou em Brescia.

Vincenzo Nibali, italiano da equipe cazaque Astana, comemorando a honra de poder vestir a maglia rosa, a camisa de campeão do Giro. (Italian Cycling Journal)

  • Vuelta a España 
Percurso para a edição de 2013. (Road Cycling UK)
A menos tradicional, mais jovem, e última dentre as Grande Voltas a ocorrer no calendário.  Entrará, entre o fim de agosto e a primeira quinzena setembro, em sua 68ª edição. Assim como o Giro, baseia seu funcionamento e estrutura no Tour de France. E assim como a competição francesa, a sua conclusão ocorre na capital.

Alberto Contador, apelidado de "el Pistolero", da equipe Saxobank, vencendo em casa e vestindo a camisa vermelha na última edição da Vuelta. (Cycling Fans)
Mountain Bike (MTB)
Pelotão segundos após a largada em etapa válida pela Copa do Mundo de Moutain Bike. (Paul van Der Ploeg)

O Mountain Bike (Cross Country) é uma das principais vertentes do ciclismo na atualidade, talvez sendo ofuscado apenas pelo ciclismo de estrada. As competições do gênero vêm crescendo ano após ano, e a quantidade de adeptos aumenta vertiginosamente. Consiste em corridas ao ar livre, tanto em circuitos com algum nível de adaptação ou não, quanto em trajetos pré-estabelecidos de estradas rudimentares. O terreno para tanto, é irregular (tanto em sua composição, jamais asfáltica, quanto em relação à altimetria). Trata-se de uma modalidade que exige tanto bom condicionamento físico (dada a irregularidade no esforço empreendido - em picos de intensidade), quanto boa técnica na superação de obstáculos (em subidas e principalmente em descidas). As bicicletas de cross country são reforçadas para a absorção de impacto, com duplo sistema de suspensão (frontal e traseiro) ou simplesmente frontal, e itens importantes de segurança, como o sistema de freios a disco.

Tido como o melhor atleta da atualidade, o suíço Nino Schurter, com sua camisa de campeão mundial de MTB, é ainda medalhista de bronze em Pequim e de prata em Londres. (Red Bull)
  • Downhill
Derivado do Mountain Bike, e como o próprio nome já deixa explícito, o Downhill foca sua dinâmica de prova exclusivamente em descidas de ladeiras, sejam elas urbanas ou em circuitos criados ao ar livre. As competições em si exigem dos atletas muito mais técnica de condução e transposição de obstáculos ante a condicionamento físico (que via de regra é inerente ao ciclismo). As bicicletas específicas para essa modalidade têm o quadro reduzido (tanto em altura quanto em comprimento), o selim (ou banco) na altura mínima possível, e um sistema de suspensão traseiro e frontal extremamente potente.

Ciclista de Downhill durante a insana competição Red Bull Rampage. (Pink Bike)

Cyclocross 
Ciclistas encardidos de lama carregando suas bicicletas degraus acima. (CX Magazine)
Um meio-termo entre o ciclismo de estrada e o mountain bike. É geralmente tido como uma espécie de refúgio para os ciclistas de outras modalidades que não pretendem parar completamente suas atividades, e também como um meio de manter o cenário do ciclismo em atividade, visto que o ápice das competições desta modalidade coincide tanto com o fim da temporada do ciclismo de estrada, tanto quanto com o inverno no hemisfério norte. As competições acontecem em circuitos de pequena extensão ao ar livre, nas piores condições possíveis! Como se pode ver na foto acima, existem ainda algumas alterações artificiais, como a construção de escadas rudimentares, com o intuito de aumentar o já suficientemente grande desafio inicial. As bicicletas são basicamente idênticas às de estrada, com algumas leves adaptações, especialmente com relação aos pneus.

A magnífica e extremamente vitoriosa holandesa Marianne Vos "de folga" numa prova de cyclocross. Vos compete regularmente em competições de estrada. (Cycle Photos UK)

Bike Trial
Uma modalidade do ciclismo onde a disputa não segue parâmentros de uma corrida, mas sim, por manobras. Aqui, então, o que conta mesmo é a perfeição e dificuldade das manobras executadas.

Danny Macaskill, a fera em manobrar sobre obstáculos urbanos.(Laughing Squid)

BMX
Pista de BMX montada para os jogos olímpicos de Londres 2012. (ESPN)
Bastante semelhante ao Bike Trial, o BMX difere-se muito por conta de sua dinâmica: uma corrida. A grosso modo é como o moto-cross para bicicletas, "mini-bicicletas" por assim dizer. A proteção aqui é reforçada, de modo que os ciclistas usam roupas que cobrem todo o corpo, cotoveleiras, joelheiras, capacetes envolvendo toda a cabeça, e também espessos óculos de proteção.

Cliclistas de BMX em ação em Londres 2012. (Cycling Weekly)

Ciclismo de Pista
Vista panorâmica de um velódromo (pista). (Road Cycling UK)
Essa modalidade do ciclismo surgiu a partir da dificuldade (ou quase impossibilidade) que muitos organizadores de provas de estrada encontravam em cobrar ingresso dos espectadores, além do pouquíssimo tempo em que estes últimos conseguiam ver os atletas. Para isso, teve-se a ideia de construir um local fechado que pudesse solucionar todos esses problemas. É a modalidade que registra números impressionantes, principalmente quando o assunto é velocidade. A pista, ou também conhecida como velódromo, é feita preferencialmente de madeira, e é relativamente pequena - uma volta pela parte mais interna, mede apenas 250m. Nas suas extremidades (curvas), observa-se uma inclinação forte de até 42º, que é aliviada nas partes retilíneas. As bicicletas de pista assemelham-se às de estrada, contudo possuem duas grandes diferenças, entre outras, que são: a ausência de freios e de marchas. São as chamadas bicicletas de pinhão fixo, ou seja, de uma única marcha, que não pára de girar o eixo central da bicicleta enquanto esta estiver em movimento. Para que o ciclista pare, ele precisa continuar pedalando ao redor do velódromo sem imprimir força. Existe uma grande variedade de competições realizadas num velódromo. As mais famosas são: o "recorde da hora", onde um ciclista pedala sozinho e tenta estabelecer a maior distância percorrida em 1 hora; e o Sprint, uma disputa que demanda estratégia, explosão e força bruta, onde em uma volta os ciclistas chegam a atingir uma velocidade média de cerca de 70km/h.

Gigante das pistas, multi-campeão olímpico, o escocês Chris Hoy aposentou-se esse ano. (Spor Magazine UK)
Triathlon
No círculo vemelho o tubo do recipiente de hidratação interno ao quadro da bicicleta de triatlo. (Ironman)
Sobre o esporte em si, aconselhamos uma olhada no guia básico aqui. As bicicletas de triatlo são extremamente semelhantes às de contrarrelógio, de modo que muitas vezes provocam confusão. Vale observar que existem diferenças sutis na sua geometria, e no quesito acessórios, como é o caso de suportes externos para recipientes de hidratação (ou até mesmo suportes de hidratação já embutidos no quadro da bicicleta). A diferença na geometria faz com que o triatleta posicione-se um pouco mais "pra trás" do que se comparado a um contrarrelogista.