segunda-feira, 3 de junho de 2013

Guia Básico Sobre o Ciclismo (Parte 1)

Prezados leitores da Tribuna do Cisco,  a partir de hoje, a Tribuna do Cisco tratará também  de triathlon e ciclismo. Como é de ciência geral da nação, ambos esportes não são tão populares se comparados aos demais tratados aqui mesmo neste blog (apesar de apresentarem acréscimo considerável de participantes e entusiastas nos últimos anos), daí a necessidade de um guia básico sobre cada um para melhor situá-los previamente antes de acompanharem as matérias por vir.

Pelotão ovacionado de perto na Amstel Gold Race de 2013. (Cycling Weekly)

O ciclismo está entre os esportes mais tradicionais que existem, especialmente para o público europeu. Para se ter uma ideia, no inicio do século passado era o esporte nº1 na Itália, invariavelmente perdendo espaço mais tarde para o futebol. É esporte olímpico desde a primeira edição da era moderna, em 1896. Do aparecimento das primeiras competições até os dias de hoje, muita coisa aconteceu, e o esporte, claro, vem evoluindo lado a lado com a tecnologia. Portanto, é crucial estabelecer as diferenças entre os tipos básicos do ciclismo e suas peculiaridades.

Ciclismo de Estrada

Pelotão durante a última edição do Giro D'Itália. (Cycling Weekly)

Trata-se da modalidade precursora do esporte, e não por acaso, a mais famosa e mais grandiosa também (em número de participantes, público presente, audiência televisiva, salários, renda gerada direta e indiretamente, entre outros quesitos). O ciclismo de estrada é, mesmo que com base no individualismo, um esporte coletivo, pois se estrutura em equipes. Algumas modalidades na 2ª parte deste guia também se estruturam em equipes. O órgão máximo do ciclismo, a UCI (Union Cycliste Internacionale) estabeleceu recentemente algo que a grosso modo, pode ser explicado como 1ª e 2ª divisão do ciclismo mundial. As equipes da "1ª divisão" fazem parte do chamado World Tour, grupo das 19 equipes que têm vaga garantida nas principais competições mundiais. Já as equipes da "2ª divisão", o chamado Pro Continental, podem disputar eventualmente algumas dessas grandes competições, caso recebam convite da organização da respectiva competição. Em cada prova uma equipe participa com 9 de seus atletas, ao lado de outras 20 equipes (aproximadamente), o que perfaz um pelotão inicial de cerca de 200 ciclistas! Cada equipe possui um elenco próximo a 25 atletas, pois é comum a ocorrência de competições simultâneas do calendário do World Tour, ademais, existe também a necessidade de poupar atletas, evitando fadiga. Os ciclistas, por sua vez, diferenciam entre si de acordo com sua especialidade e/ou função dentro da equipe. São eles: os contrarrelogistas (ver abaixo); os escaladores (especialistas em provas de montanha); os sprinters (velocistas que disputam o primeiro lugar na linha de chegada em provas com final plano); os gregários (são os ciclistas à frente do capitão, para que este último pedale no seu vácuo e poupe, conforme estudos afirmam, 40% de energia); e o capitão (o homem escolhido por sua equipe para disputar a vitória da prova, é quase sempre o principal nome da equipe, é designado tanto por sua liderança quanto por ser, geralmente, um ciclista completo).

Mark Cavendish (braços erguidos), o maior sprinter da atualidade. (Italian Cycling Journal)

  • O Contrarrelógio
Exemplo de uma bicicleta de contrarrelógio. (Cervélo)

Considerada por alguns como a disciplina mais difícil do ciclismo de estrada, o contrarrelógio é disputado tanto individualmente quanto por equipes. Em ambos os casos, os atletas largam em intervalos (geralmente de 1'30") e percorrem um traçado predominantemente plano de distâncias variáveis (desde próximo dos 7km a 50km ou um pouco mais) com o objetivo de cravar o melhor tempo (sendo que na modalidade por equipes, o relógio pára quando o 5º atleta, dos 9 que largaram, cruza a linha de chegada). Nesse tipo de prova a aerodinâmica é crucial, e os atletas imprimem força máxima ao longo de todo o percurso, comumente estabelecendo velocidades médias superiores a 50km/h. Uma variação seria a crono-escalada, um contrarrelógio em locais montanhosos.

O Team Sky no contrarrelógio por equipes do Giro D'Itália 2013. (The Telegraph)




Atual campeão australiano de contrarrelógio, Luke Durbridge da Orica Green Edge,
exige sua camisa de campeão nacional. (Green Edge Cycling)

  • Quedas
Como era de se esperar, o grande número de ciclistas reunidos muito próximos uns aos outros é ao mesmo tempo uma vantagem (diminui e muito a resistência contra o vento) e uma desvantagem, pois com pouquíssimo espaço para manobra e curto tempo para reação, as quedas em pelotões costumam envolver muitos atletas em efeito dominó - para o deleite dos mais sádicos. Apesar de ciclistas profissionais estarem extremamente habituados a pedalar ombro a ombro, as quedas são frequentes em praticamente todas as provas, especialmente quando o solo está escorregadio. Em virtude de quedas, é comum que os ciclistas fraturem alguns ossos, mais frequentemente a clavícula e o punho, sem contar com os enormes arranhões. Ossos do ofício (com o perdão do trocadilho)!

Video não-oficial de uma queda massiva durante a prova da
Elite feminina no campeonato mundial de estrada de 2012 na Holanda.

  • Fugas
Elemento bastante corriqueiro em uma prova, de certa forma tido até como algo que sempre irá acontecer. Normalmente ocorrem logo no início da prova. Consiste em um grupo pequeno de ciclistas que se destaca do pelotão imprimindo um ritmo mais forte. Na maioria dos casos, essa "fuga" é aniquilada pelo pelotão que, com o trabalho de revezamento entre equipes, consegue encostar nos ciclistas escapados e incorporá-los ao pelotão. É um trabalho muito difícil vencer uma prova tendo estado boa parte de sua duração em uma fuga, e isso se agrava quando a fuga é solo. Porém, nada disso é impossível. Há casos e mais casos de ciclistas vencendo provas (ou etapas) de cerca de 170km, tendo partido numa fuga desde o início.
Ciclista da equipe Garmin-Sharp "atacando" em uma subida durante a Liège-Bastogne-Liège 2013. Detalhe para parte do pelotão aparecendo ao fundo, juntamente com as motos de apoio e filmagem. (Cycling News)
 

  • COMPETIÇÕES
Estão basicamente dividias entre as provas de um dia (com extensão em geral próxima a 200km), também conhecidas como "clássicas", e as competições por etapas (cada etapa equivalendo a um dia). Existe também a distinção entre as provas masculinas e femininas (para elas, as distâncias são reduzidas). Dentre as "clássicas" mais famosas, estão: a Paris-Roubaix (abaixo); o Tour de Flanders (Bélgica); a Amstel Gold Race (Holanda); a Liège-Bastogne-Liège (Bélgica); e a longíssima Milan-San Remo (com seus arredondados e impressionantes 300km). 

Pelotão atravessando um dos temíveis e longos trechos de paralelepípedos
da Parix-Roubaix deste ano, uma das mais famosas provas"clássicas". (Cycling News)
  
Há ainda o campeonato mundial, que ocorre apenas uma vez ao ano (também para as modalidades Mountain Bike, Pista, Ciclo-Cross, BMX e Bike Trial). De sede itinerante, distribui o título para atletas desde as categorias inferiores (por idade) até a elite, também abrangendo as mulheres. Vale lembrar que nas competições ao longo do ano cada ciclista representa a sua equipe, mas no mundial ele passa a representar o seu país de origem. Atualmente o campeonato mundial ocorre em dois tipos de prova: a de estrada (equivalente a uma "clássica"), e a específica para contrarrelógio. O campeão passa então a usar a camisa arco-íris (recebe esse nome pois cada uma das cores representa um continente) adaptada ao uniforme de sua equipe em todas as competições que participar, até um novo campeão mundial ser definido. Algumas observações extras: ao campeão de contrarrelógio só é permitido o uso da camisa arco-íris em provas de contrarrelógio, e os ex-campeões (tanto de estrada quando de contrarrelógio) possuem o "arco-íris" na manga de sua camisa. 

O alemão Tony Martin sagrou-se bicampeão mundial de contrarrelógio na Holanda ano passado. (The Daily Mail)

O belga Philippe Gilbert (centro) no pódio do mundial de estrada 2012 com sua camisa arco-íris. (The Telegraph)

(...)
Continua na Parte 2.