segunda-feira, 25 de junho de 2012

O Cascão e o Fenômeno - Coração no bico da chuteira

Para muitos, como eu, 2002 foi a Copa do Rivaldo. O meia pernambucano foi o maestro da equipe em praticamente todos os jogos, marcando gols em todas as partidas da primeira fase. Para outros tantos, 2002 foi a Copa do Felipão, da família Scolari. Tem defensores até da Copa do Kléberson! Mas algo que brasileiro nenhum pode negar, mesmo aqueles que não são tão fãs do rapaz, como figura pública – mais uma vez, meu caso – 2002 foi a Copa do Ronaldo. 

Outrora desacreditado, o Fenômeno apresenta o
"Penteado Cascão" ao mundo  (globoesporte.com)

Saitama Stadium (flicker)
Desacreditado, acabado para o futebol, ultrapassado, o Fenômeno recebeu um voto de confiança particular do treinador da seleção, e mostrou o seu potencial desde o início do torneio, como você, meu caro leitor, pôde acompanhar nas postagens anteriores desta série. Entretanto, creio eu, nenhuma partida precisou mais de um toque de classe de Ronaldo, como a dramática semifinal contra os Turcos.

A partida de estréia dos dois países na Copa do Mundo já havia sido uma dura batalha, com trapalhadas da arbitragem, e uma sensação de incerteza deixada no ar: o Brasil seria capaz de bater os turcos sem o apito amigo? O treinador turco dera declarações ousadas neste sentido. O Brasil não contaria com a sua jovem estrela Ronaldinho, o Gaúcho, suspenso por uma entrada desleal contra a Inglaterra e substituído surpreendentemente por Edílson, ele mesmo, o Capetinha! O jogo, que ocorreu Saitama, começou com um singelo domínio brasileiro, com um ataque surpreendente do zagueiro Lúcio, lançado por Kléberson, no segundo minuto. Entretanto, com 10 minutos de jogo, a Turquia tomou conta do campo, Emre, de falta e, em seguida, Alpay, de cabeça, começaram a testar o goleiro Marcos. O goleiro turco, o excelente Reçber Rüstü – que, futuramente, passaria até pelo Barcelona – também apareceu, em defesa em chute de Cafu. Emre perderia mais uma grande chance, antes do final do primeiro tempo.

O ótimo goleiro turco (Blog Cal na Grama)

A situação da partida, aliada ao sumiço de Ronaldo, causava arrepios na torcida brasileira. Sem o apoio do seu melhor parceiro, Rivaldo não conseguia carregar o pesadíssimo piano amarelo. O segundo tempo precisaria ser mais promissor, ou a caminhada poderia terminar por ali. No primeiro lance real da segunda parte, o fenômeno – que estreava um penteado que assolaria o território brasileiro durante todo o ano, corte que o próprio fenômeno batizaria de “Cascão”, baseado no personagem sujismundo criado por Maurício de Souza – domina a bola na entrada da área turca e, antes da aproximação efetiva da marcação, bate, sem defesa para Rüstü. De bico. O futebol brasileiro sempre foi um dos mais bonitos de se ver, pelo menos, ainda era, até ali, entretanto, precisou ser pragmático, objetivo. A velocidade da família Scolari não estava sendo efetivo, classe, toque de bola, dribles, nada surgiu. Apenas um grande gênio teria a percepção de fazer o mais simples parecer belo, e de um toque “a la Romário” – como classificou o próprio fenômeno – viria a classificação brasileira. O resto da partida foi de pressão turca, mas sem muito perigo, alternada por duas chances e Luizão, que entrara no lugar do fenômeno.
Ronaldo, de bico, é o Brasil na final (Revista Veja)
Quase nada importou para a torcida brasileira depois do gol de Ronaldo, o Fenômeno, o Cascão, com o seu dedo apontado para o céu, representou muito mais do que um simples jogador comemorando um gol. Ali, Ronaldo era cada brasileiro que é menosprezado e negligenciado, Ronaldo era cada um de nós que não tínhamos a confiança necessária para atingir nossos objetivos, Ronaldo era a persistência que levava o Brasil para a frente.

Denílson é caçado, mas
não é alcançado! (Blog Botões para Sempre)
Uma imagem mais é inesquecível. Além de Luizão, Belletti e Denílson entraram na partida, este último, responsável por uma das cenas mais lembradas da história das Copas e da Seleção Brasileira. O eterno moleque partiu com a bola no campo de ataque turco, a fim de ganhar alguns minutos, e foi cercado por um esquadrão turco, quatro constantinopolitas não foram capazes de obter a bola, sem uso da força. Aquela imagem estará sempre marcada no imaginário brasileiro. O Brasileiro não pode ser derrubado, o Brasileiro não pode ser alcançado!

Uma partida de ressurreições e pouco brilho. Um jogo que fica marcado como um dos mais difíceis da Copa. Depois de passar por turcos, ingleses, belgas, chineses e costarriquenhos, o Brasil estava pronto para os alemães.

Felipão, Murtosa e o Cascão salvador. Ao fundo, Ilhan Mansiz lamenta a eliminação. (Ig Esportes)
Os times:
Brasil:  1 Marcos; 2 Cafu, 5 Edmílson, 3 Lúcio, 6 Roberto Carlos, 4 Roque Junior; 8 Gilberto Silva, 15 Kléberson (13 Belletti -- 85 mins), 10 Rivaldo; 20 Edilson (17 Denilson -- 75 mins), 9 Ronaldo (21 Luizao -- 67 mins).
Truquia:  1 Rustu Recber; 4 Fatih Akyel, 3 Bulent Korkmaz, 5 Alpay Ozalan; 10 Yildiray Basturk, 21 Emre Belozoglu (17 Ilhan Mansiz -- 62 mins), 22 Umit Davala (13 Muzzy Izzet 74 mins), 8 Tugay Kerimoglu (6 Arif Erdem -- 88 mins), 18 Ergun Penbe; 11 Hasan Sas, 9 Hakan Sukur.