segunda-feira, 12 de março de 2012

O Professor Aloprado

Uma das coisas mais elogiadas no futebol europeu é o respeito à programação elaborada antes das temporadas pelas equipes. Isso faz com que o trabalho dos treinadores seja mais respeitado e tolerado, não deixando que uma série de resultados ruins ou discussões momentâneas levem os postos do treinador para o limbo.

Não precisa ser um mega especialista em futebol para relacionar certos times aos seus devidos comandantes. Como o Barcelona, que além de Messi, Xavi, Dani Alves e Iniesta, tem sempre o nome de Pep Guardiola mencionado nas manchetes esportivas. Na Alemanha, nenhum torcedor do Werder Bremen consegue ver o posto ocupado por outro homem além de Thomas Schaff. E na Inglaterra, temos o maior exemplo de todos, quando surge o nome de Sir Alex Ferguson, que completará 25 anos no comando do poderoso Manchester United (isso faz dele o maior treinador da história do futebol).

Wenger na sua apresentação ao Arsenal. (fonte: Daily Moon)
Um dos grandes rivais do Manchester dispõe do mesmo luxo. Arsène Wenger está comandando a equipe do Arsenal desde 1996. Ele chegou com status de estudioso do futebol, pronto para quebrar com o “boring football” que manchou a história recente do Arsenal na década de 90. Apesar de pouca experiência como treinador e vindo do futebol japonês, não demorou muito para que Wenger quebrasse qualquer tipo de desconfiança que havia em questão ao seu trabalho. A comprovação ficou com o título da temporada 97-98, quando estabeleceu um jogo tático formidável. Ele desenhou duas linhas de quatro, na defesa e no meio campo, fazendo com que a defesa dos Gunners se tornasse uma fortaleza. Na frente, ele tinha os serviços de Marc Overmaas e Dennis Bergkamp (DENNIS BERGKAMP, DENNIS BERGKAMP!!! Momento nostalgia da copa de 98).

Recepção do representante de uma era.
(foto: Testament)

Mesmo vendo o Manchester United se tornar o campeão nas três edições seguintes, o Arsenal se manteve como principal rival dos diabos vermelhos durante esse período, criando, inclusive, um embate pessoal entre Wenger e Ferguson. O título não veio, mas as atuações do Arsenal eram fiéis à tradição do time do norte de Londres. E, durante esse período, Wenger fez contratações de jogadores que fariam história no Arsenal, como Thierry Henry, Frederik Ljunberg, Sylvian Wiltord, e por aí vai.
Na temporada de 2001-02 a glória volta a residir em Highbury Park (o antigo estádio do Arsenal), para alegria dos Gunners. O Arsenal quebra a sequência de títulos do Manchester United e se consagra campeão mais uma vez. Jogando no mesmo esquema que os dera o título quatro temporadas atrás, naquele esquema de duas linhas de quatro. Na temporada seguinte, título do Manchester.

A temporada de 2003-04 reservou uma surpresa que é motivo de orgulho para todo Gunner. Wenger manteve a formação tática do time, uma zaga central de jogadores fortes e laterais rápidos, que ajudavam a defesa e o ataque. No meio campo, dois centrais com características de marcação forte e boa saída de bola para fazer a ligação para o ataque. Nas pontas, dois meias objetivos e rápidos. No ataque, dois gênios (não tem como atribuir outros adjetivos). 

A formação era: Lehmann; Lauren, Campbell, Touré e Ashley Cole; Robert Pires, Patrick Vieira, Gilberto Silva e Frederik Ljunberg; Dennis Bergkamp (Reyes jogava as partidas fora da Inglaterra porque Dennis tinha/tem medo de avião... mulherzinha :D) e Thierry Henry. Esses rapazes conseguiram a façanha de serem campeões da Inglaterra de forma invicta! Desde que eu acompanho futebol, antes do surgimento desse Barcelona mítico, era o meu maior exemplo de time que sabia jogar. O Arsenal não jogava para fazer espetáculo, jogava de forma objetiva, baseada em um contra-ataque impecável! A defesa era extremamente sólida, os meio-campistas centrais auxiliavam esse combate e ainda entregavam a bola muito redondinha para os dois meio-campistas laterais. Fazendo com que todo esse esquema terminasse nos pés de dois artilheiros de primeira categoria.

O Ápice! (foto: Arsenal Stories)
Depois de uma temporada tão brilhante, um time tão encantador, um título histórico, quem imaginaria que o Arsenal sofreria tantas penúrias desde então? A temporada seguinte não rendeu o título da liga, mas trouxe a FA Cup para Highbury Park. Na temporada seguinte, o Arsenal chegou até a final da Liga dos Campeões da Europa, sendo derrotado pelo Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Porém, foi nesse período que começou a grande crítica do trabalho recente de Arsène Wenger, sua administração do elenco.

Wenger conseguiu contratar vários jovens prodígios por excelentes preços. Cesc Fábregas, Robin Van Persie, Mathieu Flamini, Emmanuel Adebayor, Alexsandr Hleb e outros seriam os responsáveis pela renovação do esquema de jogo que trouxe momentos de glória para o Arsenal. Mas, péssimas decisões de Wenger e sua diretoria fizeram com que o atual momento dos Gunners esteja muito aquém de sua grandiosidade.

O Arsenal começou a se desfazer de suas principais estrelas de maneira inexplicável, fazendo com que toda temporada houvesse aquela especulação de quem substituiria a peça importante no esquema de jogo de Wenger. Todavia, a política de investir em jovens jogadores não traz resultados imediatos. Além de trocas um tanto quanto questionáveis, quando, por exemplo, Henry trocou o Arsenal pelo Barcelona. O jogador responsável por substituir o espaço deixado pelo ídolo francês foi o brasileiro naturalizado croata Eduardo da Silva (QUEM?).

"Cesc, você já virou um excelente jogador, pode voltar para o Barça" (foto: Daily Mail).
Os jovens entraram em campo e lutaram bravamente. Na temporada 2007-08, o Arsenal liderado por Cesc Fábregas se manteve no topo da tabela por várias rodadas. Com um time jovem, composto por todos os jogadores citados acima anteriormente, apresentava um futebol ofensivo e brigador. Mas, com o passar da temporada, a maturidade que faltava para essa equipe acabou fazendo com que o Arsenal estivesse longe da briga pelo título no fim da temporada. A esperança era saber que, como Wenger tinha um time jovem na mão, algumas contratações certas fariam o Arsenal ser um dos principais concorrentes ao título de novo.

Na última janela de transferências de verão, o Arsenal sofreu mais uma vez na mão de sua administração. As vendas de Césc Fabregas e Samir Nasri foram a gota d’agua para os fãs. Isso ficou ainda pior depois da humilhante derrota contra o rival Manchester United, de 8-2, sofrida em Old Trafford. O problema são as peças de reposição trazidas por Wenger, como Arteta, Benayoun e André Santos. Três jogadores medianos que não seriam titulares, talvez reservas, de qualquer grande equipe da Europa.

Eu acho muito digna a postura do Arsenal em manter sua tradição acima de qualquer dinheiro oferecido, fato raro hoje na liga inglesa. Um dos argumentos é que o clube dispõe de uma saúde financeira suficiente para manter um elenco competitivo no cenário atual. Eu continuo achando isso que o Arsenal faz muito saudável para o futebol atual. Afinal, hoje em dia, não é raro acontecerem transações mirabolantes que trazem à tona a velha discussão de “quanto custaria um Pelé hoje? E um Zico? E um Cruyff?”. Se for pra pensar em suposições, prefiro pensar na Ellen Rocche.
"E agora, Wenger?" (foto: Daily Mail)
O Arsenal não é digno de jogadores como Song, Gervinho, Gibbs e outros. Para o bem do futebol, ou de qualquer esporte, é sempre bom você ver os times tradicionais ressurgindo depois de momentos de dificuldades. Mas, fica a pergunta, será que o Arsenal passará por esse ressurgimento através das mãos de Arsène Wenger?